Ontem fui com dois amigos ao jogo do Brasil no Morumbi, contra a Argentina, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 20020. É muito ruim depender de carona, ainda mais quando não se conhece as pessoas (no caso, amigos de faculdade de um dos meus amigos). Saímos bem tarde da casa do sujeito, por volta das 20h35, e acabamos chegando bem em cima da hora. O outro amigo meu encontrou-nos nas proximidades do estádio, tendo chegado um pouco menos atrasado que nós. Mas quem estava com os ingressos era eu.
O Palmer também deveriam estar com uns amigos, com quem ele tinha ido de carro, mas eles estavam do outro lado do estádio, na arquibancada amarela, setor em que eles tinham sido instruídos a comprar seus ingressos. Eles estavam lá porque, quando comprei os meus ingressos pela Internet, tinha escolhido aquele setor. Só que, quando fui buscá-los, na véspera do jogo, me entregaram ingressos para a arquibancada laranja, e eu não percebi na hora. Não daria mais para mudar os ingressos deles.
Quando finalmente conseguimos passar pelas catracas, já não dava nem para alcançar a arquibancada direito, com a lotação já alcançando os acessos a ela. Para conseguirmos nos embrenhar na multidão da arquibancada laranja, o Palmer e eu deixamos o Johnny e seus amigos para trás e fomos tentando “abrir caminho”. No exato instante em que consegui finalmente enxergar o campo, Antônio Carlos cruzou para Alex abrir o placar para o Brasil. Pausa para comemorar, seguida pela retomada da nossa tentativa de subir pela arquibancada. Muita gente ainda tentava subir, então decidimos parar no primeiro lugar em que já dava para assistir ao jogo de uma maneira um pouco melhor.
De repente, dois degraus acima,um sujeito solta um grito: “Porra, Roque Júnior, negro palmeirense filho da puta!” Quase do lado dele, um cara respondeu: “Você tem alguma coisa contra palmeirense?” Note que, para esse cara, o problema não estava no racismo da frase, mas, sim, no clubismo. Os dois só não saíram na mão porque havia uma pessoa entre eles e não havia nem como se mexer direito. Ainda assim, ficaram lá discutindo até chegar um policial militar. Só aí que a coisa sossegou.
No intervalo, por incrível que pareça, achamos o Johnny novamente. Para a sorte dele, aliás, porque, apesar de ter ido com os amigos, ele voltaria com a mesma carona que nós. Mudamos de lugar, para mais perto da arquibancada vermelha. No segundo tempo, a Argentina atacaria no gol do nosso lado. Enquanto o Johnny ficou umas quatro fileiras para cima com seus amigos, acabamos descendo até a primeira fileira e conseguimos até sentar ao lado da grade, um ótimo lugar para observar o lançamento generalizado das bandeirinhas distribuídas pelo jornal Lance! na direção da pista que circunda o gramado.
Além dos dois gols do Brasil e um da Argentina a que assistimos no primeiro tempo, acompanhamos mais um gol brasileiro no segundo, que deu a vitória por 3 a 1. Ao fim do jogo, fomos até o carro do amigo do Palmer, aquele que daria carona a todos. Ele apareceu depois de uns vinte minutos, com mais três amigos. Sim, teríamos que dar um jeito de colocar sete pessoas em um Fiat Tipo. Na verdade, essa era a parte fácil. A parte difícil foi passar por todas as lombadas do Morumbi sem raspar a parte de baixo do carro. Aliás, parte impossível, porque devemos ter raspado em todas as vezes.
Na casa do amigo do Palmer, este pegou seu carro e pôde dar carona para o Johnny e para mim. Até tentamos fazer um after hours nas tradicionais lanchonetes da madrugada em que conseguimos pensar (Milk & Mellow, Joakin’s, New Dog e Fifties), mas as quatro estavam lotadas, e desistimos da empreitada. Cheguei em casa por volta da 1h30 da manhã, o que, se considerar a distância, as escalas e o fato de que o jogo começara depois das 21h40, não foi tão tarde assim.
Meu escritório também tinha mudado de endereço ontem, da Avenida Paulista para a Alameda Santos, mas na manhã de hoje ainda fui para o antigo, já que eu tinha que pegar algumas das minhas coisas. Na mudança do dia anterior, eu não tinha levado tudo, porque ninguém tinha ainda as chaves dos gaveteiros, e eu preferi deixar na segurança do escritório antigo. Até poderia ter levado para casa no dia anterior, pois não era muita coisa, mas a ida ao Morumbi cancelou essa opção.
Este texto foi escrito num email para meu amigo Germán e adaptado para clareza quase vinte anos depois.
Foto: Ainda bem que a legenda na página 4 da milésima edição do Lance! explicava que Vampeta estava comemorando seu primeiro gol, porque a expressão parece mais de nojo. Crédito: Daniel Augusto Júnior/Lance!.
