Red Light District. Foto: Jean Carlo Emer/Unsplash.

A capital do prazer

Maconha? Pode. Sexo? Muito natural. Mesmo com leis rígidas como de qualquer cidade europeia, Amsterdã é um dos lugares mais libertários do mundo.

No filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, os bandidos vividos por John Travolta e Samuel L. Jackson travavam um diálogo em que o primeiro descrevia Amsterdã como um paraíso, onde cerveja era vendida no cinema em copos de vidro, maconha era vendida em bares e policiais não tinham o direito de revistar pessoas. Tarantino não inventou tudo isso nem tirou de livros de ficção. Amsterdã é assim. E o sexo na capital da Holanda também é visto com absoluta naturalidade.

Quem chega de trem à noite percebe uma grande diferença logo na praça em frente à estação principal da cidade. Ao perceberem que o alvo é estrangeiro — alguém com malas e andando meio sem rumo —, os mendigos vêm pedir dinheiro em inglês. E aceitam qualquer coisa. Diga que é do Brasil, e, depois de perguntarem qual é a moeda por aqui, irão lhe pedir reais. O que farão com eles é uma incógnita.


Alguém aí disse café e haxixe?

Não se deixe enganar pelo inocente nome dos coffee shops. Estes são os bares descritos pelo personagem de Travolta, onde você dispõe até de um cardápio com os tipos de maconha e haxixe disponíveis para venda. Como era de se esperar, esses bares têm um ambiente carregadíssimo de “fumo”, com aquela nuvem de fumaça pairando sobre as mesas. Ou seja, mesmo que você não encare, vai acabar fumando por tabela.

A maconha geralmente é vendida em balcões separados do bar, dentro de saquinhos com um grama, que custam entre doze e vinte florins (9,60 a 16 reais). Existem muitas variações, por isso o cardápio da erva pode ser até maior que o debebidas e o preço pode disparar, dependendo da composição do saquinho.


O bolo que Tia Nastácia não faz

As bebidas, aliás, costumam ser mais caras nos coffee shops do que em outros bares, mas em nenhum deles você vai encontrar disponíveis os bolos especiais, feitos com maconha. Se você for se arriscar a prová-los, comece com um pedaço pequeno, pois nunca se sabe o quando de cannabis estará comendo. ANtes que percebe, já terá consumido demais, e aí é correr para o banheiro.

Nas mesas, gente de todo tipo enrola baseados e fuma em maricas. Fuja dos coffee shops voltados para turistas, como o The Bulldog. O ambiente é até agradável, mas, já que está em Amsterdã, provavelmente vai querer ver o modo de vida de lá, e no The Bulldog o máximo que irá observar serão gringos chapados e gente fumando pela primeira vez.

No Rokerij, por exemplo, a alguns poucos quarteirões, você quase não vê turistas e ainda contempla algumas das garçonetes mais bonitas da Holanda. O grande problema é a falta de lugares, mas pode-se até sentar no chão. O banheiro não tem portas, o que é um inconveniente, mas permite que se espie as mulheres enquanto retocam a maquiagem e fazem fofocas.

Se você for fumar, preste atenção nas instruções contidas em folhetos disponíveis em todos os coffee shops. Dentre elas, a que mais chama atenção é a que recomenda não comprar drogas na rua — qualquer uma, inclusive maconha. Só os coffee shops e algumas lojas são liberados para venda. Erva comprada na rua costuma ser adulterada, podendo causar indesejados efeitos colaterais. Outro ponto importante: não leve maconha ou haxixe com você na volta ao Brasil.


Tudo o que se pode espiar sobre sexo

O sexo também é uma característica marcante da cidade. Não que você veja pessoas transando na rua — isso é ilegal —, mas existem sex shops em abundância, e quase todas as lojas de suvenires vendem objetos tendo o sexo e a maconha como tema. Cartões postais sensuais, pornográficos e chulos também são comuns. Alguns são muito engraçados.

Nada representa melhor o sexo do que o Red Light District. Ele representa para Amsterdã o que a Rua Augusta à noite representa para São Paulo. Lá, você acha de tudo, sempre relacionado a sexo. Com exceção da rua principal, os carros não são permitidos no Red Light. As ruas não ficam exatamente lotadas, mas sabe-se que trombadinhas agem pela região, então todo cuidado é pouco. Ao contrário da Augusta, as garotas não podem ficar na rua, mas em vitrines nas casas, vestindo nada mais que lingeries e sempre em poses convidativas. Seios de fora nunca, mas elas fazem caras e bocas para atrair os olhares dos transeuntes, na esperança de que um deles venha bater à sua janela.


Garotas fast-food

Há algumas garotas realmente muito bonitas “expostas”, que são dignas de qualquer fantasia. Para achá-las, não é preciso andar muito. Claro que nem todas são gatas esculturais; lá, existem mulheres para todos os gostos, e é pouco provável que você não encontre pelo menos uma que chame sua atenção.

O programa é no estilo fast-food. Demonstra-se interesse, a garota abre o vidro, fala o preço — é difícil regatear — e, caso este seja aceito, o interessado é convidado a entrar. O preço pode variar muito, mas em média é de cerca de cem florins (oitenta reais). O programa costuma ser feito dentro da vitrine, mesmo, com as cortinas devidamente fechadas. Se a cortina daquela gata que você viu no dia anterior estiver cerrada, nem pense em bater no vidro, porque, se o cafetão aparecer, você estará numa bela enrascada. Os cafetões também não gostam de fotos de suas garotas. Os que tentam usar o truque do “estava só tirando foto do meu amigo” nem sempre se dão bem.

A rua principal do Red Light, Oudezijds Achterburgwal, é uma daquelas cortadas por um canal, muito comuns em Amsterdã. Nessa rua, fica o Museu Erótico, um lugar onde você vai pode aprender a história do sexo por meio dos objetos usados ao longo dos séculos, das fotos e ilustrações. Por que nossos professores não nos ensinaram essa história na escola? Ainda na Oudezijds Achterburgwal, também se encontram vários cinemas, casas de show e sex shops. Os cinemas não diferem muito daqueles da Avenida Ipiranga e arredores.


Nada de viajar demais

As casas de show são mais interessantes, sempre com decoração de muito bom gosto… sexy. É cobrada uma entrada, que varia de dez a cem florins (oito a oitenta reais), mas consumação mínima não é algo que seja muito praticado na Europa. Assim como nas vitrines, há uma variedade muito grande de mulheres, sempre dispostas a conseguir o mpaximo do dinheiro dos clientes, seja em shows no paco, seja em cabines individuais.

Nestas, diga-se de passagem, é proibido tocar nas mulheres, ainda que seja o que você provavelmente mais vai ter vontade de fazer — isso quando não houver um vidro separando cliente e contratada. Os movimentos das gatas fazendo um strip tease — ou algo mais que achamos que só existe em nossa imaginação — são eróticos demais. É difícil resistir, mas candidatos não faltam, chegando a pagar altos preços por um show mais ousado.

Talvez a maior decepção tenha ficado por conta dos sex shops, em que o forte é a parte de revistas masculinas e femininas. Pode-se encontrar várias publicações de diversos países, inclusive do Brasil. Também existem disponíveis em grande quantidade vídeos, vibradores e tônicos “mágicos”. Como o preço é salgo, melhor deixar para lá.

Embora às vezes pareça, nem tudo é permitido na Holanda. Maconha, haxixe e cogumelos — os mágicos, bem entendido — são liberados. Drogas como cocaína e ecstasy são proibidas. Apesar de todas as liberdades, não se esqueça de que Amsterdã fica na Europa. Ou seja, nada de beber demais, fumar demais, “viajar” demais, tentar dar um jeitinho etc. As regras e leis são rígidas para todos. Embora os policiais ainda não tenham o direito de revistar você.


Foto: Jean Carlo Emer/Unsplash. Texto publicado originalmente na revista SexWay número 13, de janeiro de 2001.