Cheguei ao aeroporto de Frankfurt de manhã bem cedinho naquele dia 7 de novembro de 2000, por volta da seis, vindo de São Paulo. O voo não estava cheio, então tive a poltrona do lado toda para mim, apesar de haver um sujeito gordo lá quando eu cheguei — ao ver que as portas do avião tinham sido fechadas, ele procurou um lugar vago nas fileiras do meio, onde não tinha ninguém.
Minha ideia inicial era aproveitar meu passe de trem Eurail para viajar até Hannover e só no dia seguinte ir para Zurique. Eu não tinha mantido muito contato com a família dos arredores de Hannover que tinha me hospedado num intercâmbio quase oito anos antes, mas resolvi dar uma ligada para tentar me encontrar ao menos com o Marcel, meu “irmão” no intercâmbio. Combinamos que eu ligaria novamente quando chegasse a Hannover.
Chegando lá, liguei para ele. Tive antes de trocar algum dinheiro, porque não consegui fazer nenhum dos orelhões de lá aceitar meu cartão de crédito. Ele demorou um pouco para chegar, afinal vinha de trem de sua cidade, próxima à capital da Baixa Saxônia. Quando chegou, mais de uma hora depois, ele não pareceu muito entusiasmado e até um pouco fechado, mas fomos conversando, e eu notei que ele foi se abrindo. Felizmente, o inglês dele tinha melhorado bastante, porque o meu alemão só tinha se deteriorado desde minha primeira visita.
Ambos contamos os pedaços de nossas vidas que ficaram escondidos durante alguns anos sem quase nenhum contato. Fuçamos em uma loja de CDs, tomamos alguma coisa num café e passeamos pelo centro da cidade, por sinal um local muito agradável. Ele me contou que planejava se alistar na aeronáutica americana e me garantiu que havia um posto de alistamento em Frankfurt. Eu comentei que ainda não sabia onde iria passar a noite e perguntei se ele não queria ir comigo até Frankfurt, onde poderíamos rachar um quarto de hotel. Ele gostou da ideia, e, depois de trocar uma passagem que ele tinha para Amsterdã, partimos rumo a Frankfurt.
Como havia alguns hotéis em volta da estação principal, parecia fácil nossa tarefa: achar um barato. O problema é que todos os que achamos, além de caros, estavam lotados. A cidade sempre fervilha com eventos, mas não achar absolutamente nada em cima da hora pareceu surreal. Voltamos para a estação e procuramos um quadro, parecido com aqueles do Shopping Iguatemi onde se localizam lojas, que tinha anúncios de hotéis na cidade. Procuramos pelos mais baratos e achamos um que não era longe. Ligamos para lá — ou melhor, ele ligou —, e o recepcionista disse que tinha vagas.
Em pouco mais de cinco minutos, chegamos ao hotel. Quer dizer, hotel era força de expressão, porque eu já vi hotéis mais aconchegantes (eufemismo para “limpos”) em filmes sobre o século XIX. O preço, noventa marcos (algo em torno de oitenta reais na época), era absurdo, mas não tínhamos outra alternativa. Dividimos a conta, paga adiantada, e fomos para o quarto.
Eu estava morto. Passava das oito da noite, e eu estava acordado praticamente desde a manhã do dia anterior, graças à minha sina de não conseguir dormir em aviões. Fui dormir logo depois, mas o Marcel disse que iria dar uma volta. Fiquei no quarto, tentando dormir no meio de gritos e sirenes na rua — sabe aqueles filmes americanos onde o personagem dorme em alguma bimboca na pior parte de Nova York? O aquecimento do quarto não funcionava, mas a noite não estava assim tão fria. Pela janela, podiam ser avistados alguns bares que provavelmente eram prostíbulos.
Eu só ficava imaginando que, a qualquer momento, iria entrar um sujeito mal-encarado, falando num alemão super-rápido (que seria grego para mim) para eu passar a mala e a carteira. Felizmente, isso não aconteceu, mas eu não conseguia pegar no sono por mais que meia hora de cada vez. E o Marcel também não voltava. Quatro da manhã, e nada. Às seis, ainda nem sinal dele. Quando o sol nasceu, comecei a ficar preocupado de verdade. E agora? Eu teria que ir até a delegacia, fazer um B.O. ou coisa do tipo em alemão e ainda não poderia seguir para Zurique até sabe-se lá quando.
Eram quase nove da manhã quando o Marcel abriu a porta do quarto. Perguntei aonde ele tinha ido, mas ele não explicou direito. Pelo que entendi, ele teria pegado o trem e ido até a última estação. Em qual direção, só ele sabe. Arrumei rapidinho minhas coisas e voltei à estação, onde peguei o trem para a Suíça.
Depois disso, nunca mais falei com ele. [Atualização em 17/5/2020: Até hoje, nunca mais falei com ele.]
Foto de abertura: A vista da janela do meu quarto naquele hotel de Frankfurt, em 2000. Crédito: Alexandre Giesbrecht.
