No embalo da edição especial de TheSlot.com.br sobre o estado da NHL no Brasil, deixem eu escrever um pouco sobre como começou minha paixão pelo hóquei no gelo… Corriam os últimos meses do já longínquo ano de 1992, quando a minha família finalmente começou a assinar TV a cabo. Quer dizer, finalmente não, porque assinar TV a cabo naquela época não era algo tão comum quanto hoje. Ah, e não era TV a cabo; era TV por assinatura: a TVA chegava via antena em casa. Ainda havia pouquíssimos bairros, mesmo na capital paulista, com cabeamento.
O pacote, então, vinha recheado com cinco canais: TVA Esportes (ESPN), TVA Filmes (Showtime), TVA Clássicos (TNT), TVA Notícias (CNN) e algum outro que provavelmente não me interessava. Na ESPN (já a versão internacional, mas ainda com muito da programação da versão americana), meu irmão e eu encontramos aquele estranho esporte praticado no gelo, que tantas brigas tinha. Confesso: foram as brigas que primeiro me atraíram ao esporte. Tanto é que me lembro de uma tarde de sábado (sim, hóquei passando nas tardes de sábado!), quando eu não estava assistindo, mas meu irmão me chamou para ver uma briga que estava acontecendo.
Com uma cobertura muito maior do que hoje, embora ainda pequena, era razoavelmente fácil acompanhar a liga. Bastava sintonizar em um dos muitos SportsCenters que passavam ao longo do dia, incluindo em horário nobre, para saber como os times estavam indo. Bem no início, ainda não tínhamos times favoritos.
Isso só foi acontecer no Natal daquele ano, quando minha avó foi para os Estados Unidos e trouxe o jogo NHL Hockey — também conhecido por NHL 92 — para MegaDrive. Sensacional: podíamos agora até jogar! Foi com o jogo que escolhemos nossos times. Simpatizei tanto com o Pittsburgh Penguins por causa do nome, que ele acabou se tornando meu time do coração. Já meu irmão escolheu o Winnipeg Jets. Mas, na hora de jogar os playoffs, ele sempre acabava tomando surras do Calgary Flames e virou a casaca.
Meu interesse diminuiu um pouco ao longo de 1993, a ponto de eu “acompanhar” a série em que os favoritíssimos Penguins foram derrotados pelo New York Islanders em sete jogos apenas pelos breves comentários do meu irmão no dia seguinte. O interesse voltou a florescer mais para o final do ano, quando meu pai trouxe um anuário da revista The Hockey News, que ele comprara nos Estados Unidos. Como aquela revista foi folheada! Na falta de Internet, escaneei várias fotos daquela revista, algumas usadas na revista que eu diagramava no Paintbrush.
O entusiasmo chegou ao ápice nos playoffs de 1994. Mesmo com os Penguins eliminados na primeira rodada, segui acompanhando, e a fita VHS que gravei com as finais entre New York Rangers e Vancouver Canucks está guardada com carinho até hoje. A abertura do jogo 1, ao som de “Right now”, do Van Halen, é simplesmente inesquecível!
Àquela altura, já tínhamos também o NHL 94 — não chegamos a ter a oportunidade de comprar o 93 —, que trazia os nomes dos jogadores. Se bem que eu já sabia havia algum tempo que o craque dos Penguins era o Mario Lemieux, embora eu ainda não tivesse ideia de quão lendário ele já era.
Depois de playoffs tão emocionantes quanto os de 1994, aguardamos ansiosamente pela temporada de 1994–95. Tínhamos conseguido um anuário da NHL com a tabela completa de jogos, por isso não iríamos perder nenhum jogo. De acordo com o guia de programação, a ESPN passaria um jogo já no primeiro dia. Videocassete a postos, ficamos na mão. E, não, não foi culpa da ESPN — dessa vez. Houve o famoso locaute que cancelou a primeira metade da temporada.
Mas o entusiasmo apareceu, maior do que nunca, quando fiquei sabendo, em janeiro, que a temporada iria, afinal, começar. Sempre contando com o auxílio do vídeo para os SportsCenters das madrugadas de dias de aula na faculdade, fui acompanhando a temporada reduzida. Nos playoffs, virada sensacional dos Penguins depois de ficarem atrás na série, 3 a 1, enquanto os Flames do meu irmão foram surpreendidos pela zebra San Jose Sharks. Com a segunda eliminação seguida por uma zebra (em 1994, haviam sido os Canucks), o interesse do meu irmão foi diminuindo até o estado de hoje, de quase total ignorância do que acontece pela NHL. De qualquer forma, montei a minha fita das finais, vencidas pelo New Jersey Devils, a exemplo do que tinha feito um ano antes.
Para a temporada de 1995–96, eu não poderia mais contar com as viagens do meu pai para os Estados Unidos, pois ele tinha saído da empresa onde trabalhava. Por isso, o vídeo e os jornais e revistas americanos, então com preços acessíveis e relativamente fáceis de se achar, foram fundamentais para mim. A estreia de um novo canal da TVA, a ESPN Brasil, também ajudou bastante: durante a madrugada, ele transmitia a programação da ESPN 2 americana, incluindo o impagável NHL 2Night, com Bill Pidto. Quantas vezes não vi o sol nascer assistindo a esse programa? (Estas memórias ficam para depois; este texto já está imenso.)
Na metade da temporada, descobri a Internet! Eu já sabia que ela existia, mas nunca tinha acessado até aquele dia 29 de fevereiro. Foi numa loja de produtos de informática na Rua Inácio Pereira da Rocha, na Vila Madalena. Como eu precisava fazer hora até pegar minha irmã na escola, passei lá, onde eu sabia, graças a uma faixa sobre a porta, que tinha acesso de uma hora por dez reais, e experimentei as maravilhas desta rede mundial. O primeiro site que acessei, seguindo conselho do dono da loja, que me orientou nos meus primeiros passos online, foi o Yahoo.
Lá, adivinhe qual foi a primeira frase pesquisada? Acertou: “Pittsburgh Penguins”. Assim, cheguei ao meu primeiro site sobre hóquei, o Let’s Go Pens, que hoje tem seu domínio próprio, mas à época estava hospedado no GeoCities. Outro site que visitei foi a seção de fotos do Nando.net, do jornal Raleigh News and Observer. Fui salvando tudo o que eu achava. Em uma hora de navegação, a uma conexão que devia ser em torno de 28.800 kbps, consegui coletar o suficiente para encher um disquete, pago à parte.
Aquele disquete, que incluía também o HTML da página Let’s Go Pens (sim, página, porque todo o conteúdo do site ficava na home), tornou-se minha principal fonte sobre hóquei por algumas semanas, até eu arrumar meu próprio modem e minha própria conexão. As finais da Copa Stanley de 1996, já com uma cobertura mais restrita da ESPN, eu acompanhei online. Inclusive, o site da ESPN publicou uma pergunta minha, respondida por Uwe Krupp, o autor do gol da vitória do Colorado Avalanche. Salvei tudo o que foi publicado sobre aquela final, que foi alterado para ter navegação correta num disquete, trabalho que nunca cheguei a finalizar.
Para uma cobertura mais local dos Penguins, naquele ano descobri o site do jornal Pittsburgh Tribune-Review, que passei a acessar diariamente. Eu conhecia o concorrente, o Pittsburgh Post-Gazette, por causa dos anúncios nas bordas do rinque dos Pens, que eu via nas transmissões dos jogos em casa do time. Justamente por causa disso, ele era o meu preferido, só que ainda não tinha uma versão online. Isso só iria acontecer em 1998, e foi o bastante para eu fazer a troca imediatamente.
Na temporada seguinte, em 15 de outubro de 1996, criei meu site, a LinharesNet, no GeoCities, que, de início, trazia informações, em inglês, sobre os Penguins e o São Paulo Futebol Clube, uma combinação sem dúvida inusitada. Como eu imaginava que as informações que eu tinha sobre o Tricolor eram óbvias demais, não demorou muito para eu abolir a parte do São Paulo e manter apenas a dos Pens.
Foi nessa temporada que consegui, pela primeira vez, ouvir um jogo de hóquei pela Internet. Não lembro qual foi, mas o primeiro de que me lembro foi um Montreal × Pittsburgh, em Montreal, em fevereiro de 1997. A transmissão era feita num aplicativo chamado RealAudio. Com a campanha decepcionante dos Pens nos playoffs e com tudo o que estava acontecendo na minha vida, fiquei meio por fora do que aconteceu depois. Só conectava para saber resultados, e olhe lá.
De lá para cá, tirando a maior velocidade de conexão, não mudou muito na minha forma de acompanhar o hóquei. Meu site ficou sem atualização entre meados da temporada de 1997–98 e a temporada de 2000–01, quando dei uma bela reformulada nele — e parei por aí, também, por falta de tempo. Em contrapartida, criei, junto com alguns amigos, TheSlot.com.br, que tanto já mencionei aqui, uma revista semanal online sobre hóquei.
Espero daqui a alguns anos poder voltar a assistir jogos ao vivo, como fazia há dez anos. Não deve ser num futuro próximo, mas quem sabe o que o futuro reserva? Afinal, quando comecei a acompanhar o esporte, a Internet não aparecia para mim sequer em sonhos…
Foto: Alexandre Giesbrecht.
