Bill Veeck. Foto: National Baseball Hall of Fame and Museum.

Ninguém via o beisebol como Bill Veeck

Não era nada mais que uma substituição, ainda que do primeiro rebatedor do time da casa no jogo. Frank Saucier, do St. Louis Browns, saía, e Eddie Gaedel entrava em seu lugar para rebater contra os Tigers. Mas o árbitro Ed Hurley achou que estavam tirando uma com a sua cara e chamou o técnico dos Browns, Zack Taylor. Não por acaso, Taylor tinha consigo uma cópia do contrato de Gaedel. Tudo em ordem. Também não por acaso, ele ainda tinha uma cópia do plantel ativo dos Browns, que tinha espaço para a adição de Gaedel.

E Gaedel foi para o bastão. Bob Cain estava arremessando pelos Tigers e não conseguia conter as risadas. O receptor Bob Swift não achou tanta graça, mas tentou ajudar seu colega de time: “Mantenha a bola baixa.” Cain até que tentou seguir o conselho de Swift, mas, ainda assim, seus quatro lançamentos foram altos demais, e Gaedel, que nem sequer ameaçou girar o bastão, andou até a primeira base, sob aplausos entusiasmados dos mais de dezoito mil torcedores presentes no Sportsman’s Park. Em seu percurso até a base, Gaedel ainda parou por duas vezes para agradecer a ovação.

Até aqui, nada de muito anormal. Mas a foto abaixo, que mostra o lance, explica por que a torcida gostou tanto.

Eddie Gaedel em sua única aparição nas grandes ligas. Foto: Jack January/St. Louis Post-Dispatch.

Como se pode ver acima, Gaedel não tinha mais do que 1,09 metro de altura. Note que Swift teve de ficar ajoelhado, e a bola “baixa” de Cain (na luva de Swift) ainda foi mais alta que o próprio Gaedel, quanto mais em relação à zona de strike do anão. Ao chegar à primeira base, Gaedel foi substituído por Jim Delsing (que acabou isolado na terceira base ao fim da entrada; os Browns lotaram as bases, mas não marcaram).

O anão tinha sido contratado por Bill Veeck, o dono dos Browns, na sexta-feira. Tudo foi cuidadosamente planejado: o contrato foi enviado para a liga à tarde, porque Veeck sabia que Will Harridge, então presidente da Liga Americana, dificilmente dava expediente às sextas-feiras depois do almoço. “A liga não tinha como não aprovar — a altura dele não estava especificada no contrato”, lembra Mary Frances Veeck, viúva de Bill.

Veeck ainda ordenou que Gaedel deixasse seu bastão imóvel. O “jogador”, que usou a camisa 1/8, sugeriu que poderia não resistir à tentação de girar o taco, ao que Veeck respondeu que levaria um rifle ao jogo e atiraria se sequer parecesse que ele tentaria girar o bastão. A ordem foi cumprida à risca.

Gaedel já tinha sido o centro das atenções no estádio alguns minutos antes. Entre as duas partidas programadas para aquela tarde, ele saiu de dentro de um bolo que comemorava os 50 anos da Liga Americana. O ato foi patrocinado por uma cervejaria, que esperava o impacto publicitário de outras “jogadas de marketing” de Veeck. A jogada parecia simples demais, e o patrocinador até chegou a ficar chateado, ao que Veeck respondeu desculpando-se. Mal sabia o empresário o que estava programado…

“Jogadas de marketing” como essa foram o grande legado de Veeck ao beisebol. E não estamos falando apenas de bizarrices, mas também de ações que hoje são padrão. Nomes nas costas? Idéia de Veeck. Jogos com brindes para o público? Idéia de Veeck. Placares explosivos? Idéia de Veeck. Ora, até a hera que decora as paredes do campo no Wrigley Field foi ele que plantou!

Para Veeck, o beisebol era entretenimento, não religião. Ele começou a tentar provar isso quando comprou seu primeiro time, o Milwaukee Brewers (que não tem nada a ver com os atuais Brewers), da American Association, em 1941, tendo como sócio Charlie Grimm, ex-estrela e ex-técnico dos Cubs, time de que seu pai tinha sido presidente e de que o próprio Bill fora tesoureiro depois.

Mesmo sendo dono de um time, Veeck serviu na Segunda Guerra Mundial pelos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, por três anos. Foi nessa época que, em um acidente com um lançador de granadas, ele perdeu seu pé (alguns anos depois, ele teria de amputar a perna toda). Foi também nessa época, em 1942, que ele tentou comprar o Philadelphia Phillies, que estava afundado em dívidas. Reza a lenda, nunca comprovada, que ele pretenderia preencher o elenco do time com jogadores das Ligas Negras, mas que o comissário Kennesaw Mountain Landis, notório racista, vetou o negócio e conseguiu fazer com que a Liga Nacional assumisse o time.

Só em 1946, aos 32 anos, é que Veeck conseguiria comprar um time das grandes ligas, o Cleveland Indians. Sua primeira decisão foi colocar os jogos do time no rádio, algo polêmico na época, pois supunha-se que isso afastava a torcida dos estádios. No ano seguinte, pouco depois de Jackie Robinson estrear pelos Dodgers, Veeck contratou Larry Doby, o primeiro negro na Liga Americana. Um ano depois, Satchel Paige, o arremessador mais famoso das Ligas Negras, foi contratado e tornou-se, aos 42 anos, o novato mais velho da história das grandes ligas. Nesse ano, os Indians ganharam a Série Mundial pela segunda e última vez.

Quando Veeck comprou os Browns, Satchel Paige acompanhou-o a St. Louis e ainda ganhou uma poltrona reclinável que ficava no bullpen só para ele. Foto: acervo da Sociedade Histórica do Missouri.

Outra mudança que ele fez foi em 1947, quando os Indians se mudaram para o Cleveland Municipal Stadium. Veeck mandou instalar uma cerca que se movia em torno de cinco metros no intervalo entre as séries, dependendo se a distância maior favorecia ou prejudicava o time da casa. Não demorou muito para a Liga Americana estabelecer uma regra congelando as medidas do campo durante toda a temporada.

Ele foi também o primeiro a cogitar uma mudança para Los Angeles, que ainda não tinha nenhum time nas grandes ligas, mas o que enfureceu a torcida foi a tentativa de trocar o interbases Lou Boudreau. Percebendo o erro, ele foi desculpar-se em pessoa, visitando todos os bares de Cleveland para isso.

Em 1949, quando os Indians foram eliminados matematicamente da briga pelo título da Liga Americana, o que encerrava o reinado do time como campeão das grandes ligas, Veeck tirou a bandeira comemorativa, colocou-a em um caixão chique e enterrou-a no campo central do Municipal Stadium com direito até a honras militares. Outra excentricidade dessa época foi a reação à carta que um torcedor chamado Joe Earley mandou para um jornal local. Ele questionava por que jogadores ricos e famosos ganhavam noites especiais em sua homenagem ao se aposentar. Veeck não teve dúvidas: criou a Noite do Bom e Velho Joe Earley. O vigia noturno da fábrica da Chevrolet ganhou um carro conversível, uma máquina de lavar, uma geladeira, um conjunto de malas e outros presentes.

Durante toda a sua “carreira” no beisebol, Veeck teve problemas financeiros. Ao fim daquela temporada, eles foram agravados por seu divórcio, já que boa parte de seu dinheiro estava investido nos Indians. Ele foi obrigado a vender o time, mas menos de dois anos depois conseguiu juntar uns trocados para comprar o St. Louis Browns. Foi nesse mesmo ano que ele “convocou” Gaedel e sua zona de strike de poucos centímetros. Depois da partida, a liga proibiu que outros anões fossem usados no esporte. Em resposta, Veeck questionou se o interbases dos Yankees, Phil Rizzuto, de 1,67 metro, era um jogador baixo ou um anão alto.

“Eu sabia que a torcida iria adorar [essa declaração] e os cartolas ficariam revoltados”, escreveu ele em sua autobiografia. “Eu sempre achei os cartolas um alvo irresistível.”

Mas, claro, essa não foi a única encrenca que ele comprou em St. Louis. Como os Cardinals alugavam o estádio dos Browns, Veeck tentou dar um jeito de expulsar os rivais da cidade, provocando-os com a nova decoração do Sportsman’s Park, toda voltada para seu time, e contratando como técnicos Rogers Hornsby e Marty Marion, ícones dos Cards. Foi em St. Louis também que ele criou a Noite do Técnico das Tribunas.

Convidados especiais e torcedores comuns usaram placas de “sim” e “não” para votar nas decisões sobre os Browns por um jogo. Deu certo: os Browns venceram. Foto: Bettmann/Corbis.

Placas com “sim” e “não” foram distribuídas aos torcedores presentes nas tribunas, entre eles Connie Mack e o próprio Veeck. Cada decisão sobre o time naquela partida foi tomada por meio de votação. A estratégia deu certo, e os Browns venceram por 5 a 3, quebrando uma sequência de quatro derrotas.

Quando os Cardinals foram comprados pela poderosa cervejaria Anheuser-Busch, esta passou a pressionar os Browns a reformar seu estádio de acordo com as normas estabelecidas pela MLB. Veeck não tinha dinheiro para isso e acabou sendo forçado a vender o Sportsman’s Park para os Cards. Esse foi o primeiro sinal de que competir com os rivais municipais seria inviável.

Houve uma primeira tentativa de levar o time para Milwaukee, a mesma cidade onde Veeck foi dono de seu primeiro time, mas a liga, com quem ele brigava o tempo todo, não deu permissão. Na segunda tentativa, Los Angeles seria o destino, mas também não houve permissão. Sem alternativa, ele foi obrigado a vender os Browns, que se mudaram para Baltimore e viraram os Orioles em 1954.

Veeck só voltaria a ser dono de um time em 1959, quando comprou os White Sox. No mesmo ano, eles voltaram à Série Mundial pela primeira vez em quarenta anos e quebraram o recorde de público da franquia, graças às iniciativas de marketing que ele bolava, como o placar explosivo, que emitia efeitos visuais e sonoros, além de dar início a uma queima de fogos de artifício sempre que os Sox rebatiam um home run. De acordo com o livro A História da Liga Americana, depois de os Yankees terem visto o placar explosivo algumas vezes, Clete Boyer, seu terceira-base, que não tinha um taco dos mais poderosos, rebateu um home run, e Mickey Mantle e outros jogadores de Nova York saíram do banco segurando velinhas explosivas. É óbvio que Veeck não deixou a ideia passar em branco. Acima do placar do estádio dos Sox, até hoje encontram-se versões estilizadas dessas velas.

Gaedel e outros anões, vestidos como marcianos, em 1959. Foto: autoria desconhecida.

Foi em Chicago também que Gaedel voltou para um campo de beisebol, em 1959. Não mais como jogador, é claro, mas como “extraterrestre”, ao lado de três outros anões, com “armas a laser” apontadas para os jogadores Nellie Fox e Luis Aparício no Comiskey Park. Em provável alusão a Veeck, Gaedel falou no microfone: “Não quero ser levado ao seu líder. Eu já o conheci.” Gaedel ainda seria contratado, junto com outros anões, em 1961, como vendedor de arquibancada, a fim de não ficar na frente dos torcedores durante o jogo.

Em 1961, Veeck decidiu vender sua parte nos Sox, por problemas de saúde. Enquanto esteve afastado do beisebol, ele depôs contra o passe no processo que Curt Flood moveu contra a MLB a fim de ganhar passe livre. Esse ato de “rebeldia” foi mal-visto pelos donos dos outros times, assim como sua autobiografia, publicada no mesmo ano em que ele se afastou. Mesmo assim, isso não impediu que Veeck voltasse a ser o dono dos Sox em 1975.

Sua criatividade ainda não conhecia limites. Ele chegou a conduzir quatro trocas ao lado de seu gerente geral, Roland Hemond, no lobby de um hotel, com um bom público presenciando a cena, foi o flautista em uma encenação antes da primeira partida de 1976, ano do bicentenário da independência dos Estados Unidos, trouxe de volta Minnie Miñoso para oito passagens pelo bastão, para que ele tivesse jogado em quatro décadas diferentes — ele faria o mesmo em 1980, para estender a marca para cinco décadas — e ainda fez o time jogar de shorts em uma partida.

Em 1979, ele deu aos torcedores presentes ao estádio no dia de abertura ingressos grátis para o dia seguinte, por causa da derrota por 10 a 2 para o Toronto. E, no dia 12 de julho, teve sua ideia mais famosa: a Noite de Demolição da Música Disco.

Centenas de pessoas ignoraram a mensagem no placar, pedindo para elas voltarem a seus lugares, na Noite de Demolição da Música Disco. Foto: Jack Lenahan/Chicago Sun-Times.

Quem trouxesse um LP de música disco ao estádio pagaria apenas 98 centavos de dólar pelo ingresso para os dois jogos entre White Sox e Tigers programados para aquele dia. Entre as partidas, o DJ Steve Dahl — que tinha sido demitido por uma rádio que passou a transmitir apenas músicas disco, mas já estava trabalhando em uma rádio de rock — explodiria os LPs junto com fogos de artifício.

Veeck e Dahl esperavam que a promoção trouxesse cerca de cinco mil pessoas a mais, mas o estádio acabou lotado com quase sessenta mil pessoas, mais outras quinze mil que não conseguiram entrar. Depois do primeiro jogo, que os Sox perderam por 4 a 1, Dahl explodiu com pompa uma enorme caixa cheia de LPs. Até aí, as coisas ainda estavam razoavelmente ordeiras. Mas, no fim da “cerimônia”, centenas de torcedores invadiram o campo, arrancando pedaços de grama, queimando placas, derrubando uma grade de treinamento de rebatidas e arremessando LPs como se fossem frisbees. As bases foram literalmente roubadas.

“Nunca poderia pensar que eu, um DJ estúpido, poderia atrair setenta mil pessoas para uma demolição de música Disco”, contou Dahl em uma entrevista ao jornal Chicago Tribune.

Depois que avisos no placar eletrônico e pelos alto-falantes foram infrutíferos, o pelotão de choque da polícia teve de agir. Foram presas 37 pessoas. Vendo que o gramado mais parecia uma paisagem lunar com (um pouco de) grama e temendo por sua segurança, os Tigers decidiram não voltar a campo para o segundo jogo da noite, e por isso os Sox foram punidos com a derrota por W.O. Os dois jogos seguintes da série foram disputados, nos dois dias seguintes, mas pelo resto da temporada ouviu-se reclamações de jogadores e técnicos sobre o estado do gramado.

Em 1981, ele finalmente se aposentou de vez do beisebol, porque não conseguia competir com times mais ricos no novo mercado de agentes livres. A partir de então, e até sua morte, em 1986, aos 71 anos, ele pôde ser visto em alguns jogos dos Cubs, sentado nas arquibancadas externas tomando cerveja — sem camisa. Seis anos após sua morte, Veeck foi eleito para o Hall da Fama de beisebol.

Já Gaedel teve um final menos feliz. Ele tornou-se alcoólatra e morreu em 1961, aos 36 anos, de ataque cardíaco ao ser assaltado em Chicago. A única pessoa ligada ao beisebol que foi ao seu funeral? Bob Cain, o arremessador que o andara dez anos antes. “Eu nunca nem sequer o encontrei, mas senti-me obrigado a vir”, explicou Cain. Veeck não foi ao enterro, mas dedicou uma frase em sua autobiografia ao recém-falecido: “Ele foi o melhor anão que já jogou beisebol nas grandes ligas.”

E Veeck foi o homem mais criativo a já passar pela cadeira de dono de um time em qualquer esporte.

Foto de abertura: Bill Veeck, em uma sessão de fotos para a revista Look, em 1943. Crédito: National Baseball Hall of Fame and Museum.