Torcida são-paulina no Pacaembu, durante São Paulo 3×1 Corinthians, em 2012.

Reis do Pacaembu, mais uma vez

Fosse nas histórias em quadrinhos, e ninguém precisaria ir ao Pacaembu nesta tarde, pois nas HQs o bem sempre vence o mal. Mas o bem precisava de nós hoje. Em primeiro lugar, precisava que seus adeptos comprassem pelo menos 40.001 ingressos para ter a melhor média de público do Campeonato Brasileiro pela primeira vez na história. A meta não foi cumprida, como se vê na imagem acima. Pelo visto, não seria uma meta atingível mesmo no Morumbi, devido à pouca importância da partida de hoje.

Pouca importância?

No fim das contas, até nossos paredros decidiram-se pela pouca importância da partida de hoje, então mandaram a campo o valente Expressinho, que já tem em seu histórico uma eliminação do Corinthians, na Copa Conmebol de 1994. Mas a torcida presente ao estádio sentiu um frio na espinha com essa decisão, que foi-se espalhando como notícia pelas arquibancadas à medida que o pessoal ia-se informando, geralmente pelo Twitter. Voltando à metáfora dos quadrinhos, era como a Liga da Justiça enfrentando Darkseid com os Supergêmeos e o Besouro Azul tricolores, em vez de com o Super-Homem e o Batman.

E, lá dentro do Apokolips que se tornou o estádio municipal desde que o Tricolor levantou seu próprio gigante de concreto, o mal começou a triunfar após falha de um dos são-paulinos. Não eram corridos nem quinze minutos. O frio na espinha estava começando a se agravar para uma dor de estômago quando Ganso, com a frieza de um iceberg — e também a velocidade de um, já que ele não precisa de muito mais do que isso —, colocou Douglas na cara da personificação de Darkseid. Caixa. Não, não é nenhuma referência à patrocinadora deles.

Alívio.

Mais dez minutos, e Maicon — Maicon! — dominou e soltou a bomba de fora da área. Caixa de novo. E, de novo, nada a ver com a marca exibida na camisa adversária. E, desta vez, no mais literal sentido dessa metáfora. Os reservas do São Paulo estavam na frente. No finzinho do primeiro tempo, gol do mal, corretamente anulado pelo árbitro.

Bandeirão da Independente na arquibancada amarela do Pacaembu.

Como esse lance comprovou, faltava o gol da tranquilidade. Ao menos para a torcida, pois os representantes da torcida em campo demonstravam uma calma que poucas vezes se vê entre reservas. Paulo Henrique Ganso, comportamento de veterano aos 23 anos, cadenciava o jogo e enervava os jogadores do mal. O time que em pouco mais de uma semana vai disputar o Mundial de Clubes demonstrou despreparo emocional. Mesmo o irritante jogador que substituiu o peruano ainda no primeiro tempo, supostamente para enervar os jovens valores adversários, fez das suas, desta vez sem passar despercebido. Avermelhado direto, um a menos para o mal.

E veio o terceiro gol, que só faltou ser comemorado à França na final de 1998 (sinalizando “Acabou!” com as mãos). Maicon — Maicon! — roubou a bola no campo de defesa e disparou. Ganso tocou para Willian José, que lançou de maneira bisonha. Mais bisonha ainda foi a falta de domínio do zagueiro corintiano: a bola passou por entre suas pernas. Os americanos têm um verbo perfeito para isso, “trickle”. Já na frente, mas sem estar impedido, Maicon — Maicon! — entrou na área e deu o último carimbo no passaporte dos insólitos campeões sul-americanos, inspirando a torcida a entoar uma bem-humorada versão de “O Carimbador Maluco”, hit de Raul Seixas nos anos 1980 (“Plunct, Plact, Zum…”).

Festa no Morumbi Pacaembu, proporcionada por Maicon e Douglas. (Maicon Douglas? Será que eu deveria ter usado Um Dia de Fúria como metáfora?) E isso porque ninguém ainda se tinha dado conta de que, como brinde, o Tricolor tinha sido campeão do returno, um razoável prêmio de consolação. Havia gente até fazendo lobby para que a torcida alvinegra fosse liberada mais cedo do chiqueirinho dos visitantes, apenas para que os tricolores pudessem curtir mais alguns momentos. Garanto que ninguém na torcida vencedora reclamaria. Eu, pelo menos, não reclamaria.

Afinal, o bem venceu o mal.

Ah, sim, e o crédito do título (deste texto, não o do segundo turno) vai para o Rafael Techima.

Fotos: Alexandre Giesbrecht.