Minhas memórias dos primórdios da Internet no Brasil
Corria o final de 1995 quando tive meu primeiro contato com alguém que era usuário frequente da Internet. Até ali, eu só tinha lido uma ou outra matéria em revistas ou jornais, que davam uma ideia do que era essa “rede mundial de computadores”. Lembro que uma das minhas dúvidas era sobre endereços e foi assim esclarecida: quando havia arroba, era email; quando havia “http” — e era necessário digitar isso à época — , era um endereço de página.
Levei ainda algumas semanas para acessar eu mesmo a Web pela primeira vez. Imagino que vá soar estranho eu dizer que sei exatamente a data, mas eu realmente sei: 29 de fevereiro de 1996. Eu tinha de buscar minha irmã na escola, mas estava com tempo sobrando. Havia uma lojinha de produtos de informática na Rua Inácio Pereira da Rocha, na Vila Madalena, com uma grande faixa avisando que era possível acessar a Internet dali. Como eu já tinha passado na frente dessa loja algumas vezes, lembrei dela e resolvi passar lá.
O preço cobrado era de dez reais por hora, algo meio caro para a época, mas eu queria ver como era. O dono da loja mostrou-me o básico do Netscape Navigator, indicou-me o Yahoo! como ferramenta de busca e lá comecei eu a navegar em busca de informações de hóquei no gelo, que tão escassas eram para mim naquela época. O primeiro site que acessei foi o Let’s Go Pens, que ainda ficava no finado Geocities. Devorei o máximo de informações que consegui nos sessenta minutos a que tinha direito e ainda gastei mais uns trocados em um disquete, para levar comigo as imagens que tinha salvado.
Apesar de o primeiro site que eu acessei estar hospedado no Geocities, não percebi que lá eu poderia fazer meu próprio site. Ou home page, como se dizia então. Só fui descobrir isso algumas semanas depois, com a mesma pessoa que me tinha explicado a diferença entre endereços com e sem arroba. Para alguém que, como eu, tinha passado uma boa parte da infância e adolescência “fazendo revistas” (à mão), ter um lugar onde eu poderia publicar algo era uma ideia fantástica, ainda que não fosse propriamente uma revista.
Aprendi o básico de HTML em uma matéria de seis páginas de uma revista inglesa, que um amigo gentilmente xerocou para mim. Em 1996, o básico era tudo de que você precisava para criar uma home page, e eu fazia todo o código no Bloco de Notas. Era bem mais difícil fazer assim, mas não me adaptei aos editores de HTML a que tive acesso na época e, é claro, fazer o código na mão era motivo de orgulho.
Ocupei o número 6322 da vizinhança “Colosseum”, que tratava de esportes no Geocities. Foi o único que encontrei a combinar minha predileção pelo número 63 e dois algarismos iguais, para ficar razoavelmente fácil de lembrar. Resolvi unir duas de minhas paixões esportivas de então, em uma insólita combinação de futebol com hóquei no gelo: os temas da minha home page seriam o São Paulo Futebol Clube e o Pittsburgh Penguins.
No início, apenas em inglês. Depois, em inglês e português, mas era muito difícil manter atualizado assim. Lembre-se de que não havia um sistema de gerenciamento de conteúdo (CMS, na sigla em inglês, algo que só seria inventado anos depois) e eu tinha de fazer cada página “na mão”, no Bloco de Notas. Não demorou para eu me restringir aos Penguins, e apenas em inglês. (Só mais tarde é que passei a escrever apenas em português.)
No meu provedor, eu podia escolher o plano de 19 horas de acesso mensais ou uma hora por dia.
Alexandre Giesbrecht
Foi em 15 de outubro de 1996 que lancei a versão da home page que está no alto desta página. A data ficou imortalizada logo abaixo do contador (lembra-se deles?). Àquela altura, eu já tinha acesso à Internet em casa havia alguns meses, cortesia de um modem Zoltrix 14,4 kbps, classificado pelo sujeito que o configurou como um “tratorzinho”. Esse modem durou muito pouco, pois em determinado momento ele começou a ficar extremamente lento, mesmo para os padrões da época. Acabou substituído por um da US Robotics, de 28,8 kbps, um dos mais usados então.
Meu primeiro provedor foi a NetAlpha, de Alphaville, que tinha um grande diferencial: o acesso era feito por uma linha 0800. Meu nome de usuário, limitado a oito caracteres, acabaria por gerar meu primeiro endereço de email: linhares@netalpha.com.br. Para acessar a rede, era necessário executar um programa chamado Trumpet Winsock, pois o Windows 95 não tinha suporte nativo.
Não me lembro dos detalhes da mensalidade, mas era algo como trinta reais mensais, para um total de quinze (ou dezoito) horas. Sim, quinze (ou dezoito) horas de acesso à Internet ao longo de todo o mês. Quando li sobre um provedor na Flórida que oferecia acesso ilimitado, fiquei imaginando quando a ideia chegaria ao Brasil. Ainda demoraria alguns anos.
A linha 0800 provavelmente fez a base de usuários da NetAlpha crescer rápido. Um deles foi um colega de escola, que morava em Santos e pagava a mesma coisa que eu para acessar a Internet. Talvez por isso, eles pararam de oferecer a opção do 0800 ou começaram a cobrar a mais por isso; não me lembro bem. Acabei trocando de provedor, para a Alphanet — como se vê, os provedores baseados em Alphaville eram extremamente criativos —, que se autodenominava “a maior BBS multimídia do Brasil”.
Apesar de eu ter assinado o serviço para poder acessar a Internet, eu tinha de instalar o software da BBS para poder ter acesso. Nele, uma tela com o desenho de uma cidade simulava os ambientes da BBS. A praia, claro, era onde eu deveria clicar para “surfar” na Internet, e esse clique fazia tocar os primeiros acordes de “Bustin’ Surfboards”, da banda The Tornadoes, certamente extraídos da trilha sonora de Pulp Fiction, um sucesso ainda razoavelmente recente dos cinemas.
Na Alphanet, eu pagava os mesmos trinta reais (ou valor similar), mas tinha a opção de escolher meu plano de horas: dezenove horas ao longo do mês ou uma hora por dia. Escolhi a segunda opção. Eu nunca usava os serviços da BBS, a não ser pelo chat, espécie de comunicador instantâneo entre os usuários, quando alguém me chamava. Ainda assim, acabei encontrando uma namorada (que não durou muito) por ali. Alguns anos mais tarde, a Alphanet seria adquirida pelo Zaz, que, por sua vez, acabaria formando o portal Terra.
Minha home page constava da listagem que uma revista mantinha de home pages brasileiras.
Alexandre Giesbrecht
Minha home page seguia firme e forte, mesmo com poucas atualizações. Seu endereço já constava desde janeiro de 1997 do “Web Guide”, uma listagem que a revista Internet.BR, da Ediouro, mantinha de home pages brasileiras. Eu já tinha até criado outras home pages, todas no Geocities, que já tinha crescido tanto que, além da vizinhança, agora era necessário selecionar uma “subvizinhança” (por exemplo, Colosseum/Track, e, só depois, o número de quatro algarismos). Peguei uma dessas subvizinhanças logo no começo e consegui o cobiçado 1111. Algum tempo depois, acabei perdendo-o, por falta de uso…
Para criar cada uma das home pages, era necessário informar ao Geocities um endereço de email, obviamente diferente. Como eu só tinha meu email do provedor, isso seria um problema. Porém, eu costumava usar o computador que ficava disponível na biblioteca da minha faculdade, e lá ficava configurado um email qualquer, não sei de que provedor. Usei esse email, então. E não o usei apenas uma vez: descobri que ele aceitava variações, como exemplo@provedor.com.br e exemplo@panther.provedor.com.br, entre outras. Ou seja, o mesmo endereço de email multiplicava-se por quatro ou cinco.
Em novembro de 1996, descobri o HoTMaiL, que ainda era escrito dessa maneira, para ressaltar que era um email “em HTML” e podia ser acessado de qualquer lugar, não apenas do seu próprio computador (por meio do Eudora ou algum outro cliente de email dos primórdios). Fiz a inscrição no dia 21, conforme informam até hoje as configurações da minha conta.
Não que eu atualizasse muito os meus sites (acho que eu já tinha começado a me referir a eles assim), mas ao menos o original, sobre os Penguins, acabou tornando-se um tipo de referência do hóquei no gelo em português, provavelmente por ter sido o único por um bom tempo. Nas transmissões da NHL pela ESPN em português, o saudoso André José Adler costumava citá-lo no ar. O conceito de blogs ainda era inexistente, quanto mais o de comentários, então eu nunca ficava sabendo quando as pessoas entravam. O contador não ajudava muito, até porque não se pode dizer que o hóquei no gelo tivesse uma grande audiência.
Quase vinte anos depois, sigo escrevendo na Internet por prazer, tendo criado os mais diversos blogs e sites, além de contas no Twitter e outras redes sociais, um conceito que ainda estava muito longe de ser inventado na primeira vez que “surfei na Web”.
