Carlão, goleiro do Nacional, mantém-se aquecido durante partida contra o Primavera, em 2013. Foto: Alexandre Giesbrecht.

“Vivo intensamente isso, mas preciso parar”

Carlão chegou ao Bar do Nélson, na frente do Estádio Nicolau Alayon, e pediu um cheeseburger e uma Coca-Cola. Sentou-se à mesa de plástico pintado com patrocínio de cerveja e recebeu cumprimentos de alguns conhecidos que passavam por ali. Dali a pouco mais de uma hora, estaria em campo para treinar com o Nacional, que no dia seguinte enfrentaria o Guaratinguetá pela Série A3 do Campeonato Paulista de 2016. O tempo nublado parecia ser bem agradável para uma atividade física, mas também para uma conversa sob o toldo do bar, olhando para o portão principal do Nicolau.

Titular do gol do Nacional há quatro anos, Carlão é hoje a “cara” do clube, algo que ele não tinha desde os tempos do artilheiro Terrão. Mas ele também pode ser a “cara” do futebol brasileiro, que vai muito além do futebol business das “arenas” e da primeira divisão. O goleiro, de 35 anos, foi revelado no Corinthians, de onde saiu buscando espaço. Passou por Marília, Internacional de Limeira, Adap/Galo Maringá, Toledo, São Bernardo, Mixto, Canoas e São José, além de uma passagem por empréstimo pelo Juventus, quando seus direitos econômicos ainda pertenciam ao Corinthians.

Entretanto, sua ligação maior é com o clube da Água Branca, que já tinha defendido em uma primeira passagem, entre 2004 e 2005. Ídolo da pequena, mas apaixonada torcida do Nacional, Carlão está a poucas semanas de pendurar as chuteiras. Ele não tem problemas físicos, não está velho demais para a posição e ainda não deixou morrer a vontade de vencer, mas a dura realidade do futebol brasileiro de verdade forçou-o a tomar essa difícil decisão.

Nossa conversa tratou do seu período no Nicolau Alayon, com os altos e baixos que marcaram sua história ali. Os links em alguns trechos ajudam a contextualizar os jogos citados e as fotos mostram um pouco do que foi a segunda passagem de Carlão pelo Nacional.


Como você foi parar no Nacional, em 2004?
Foi um convite do Paulo Tognasini, junto com o “seo” Duarte, que era o gestor do Nacional. A Euroexport tinha acabado de voltar para o Nacional, e eu estava no Marília, que também tinha uma parceria com a empresa. Foi uma grande oportunidade, porque meus irmãos também jogaram aqui. Eu sempre quis jogar no Nacional por causa disso e porque meu pai trabalhou aqui, como diretor do clube. Ele sempre quis que eu jogasse aqui. Eu vim para pelo menos jogar uma temporada no Nacional e acabei ficando bastante tempo.

Meu pai sempre quis que eu jogasse aqui. Eu vim para pelo menos jogar uma temporada no Nacional e acabei ficando bastante tempo.

Carlão

Por que você saiu no ano seguinte?
O Paulo Tognasini teve uma proposta da Inter de Limeira, e essa minha saída do Nacional foi pelo lado financeiro. Naquela época, o Nacional tinha algumas perturbações financeiras, estava numa época difícil… a gente tinha acabado de perder as quartas de final da Copa Paulista, empatando os dois jogos contra o Comercial. O presidente não iria conseguir manter todo o time para o outro ano, e acabou vindo essa proposta da Inter, que foi muito boa… [Com ênfase.] no começo, mas depois não foi tão boa, porque a parceria acabou não dando certo. Então, foi mais por motivos financeiros do que por outra coisa.

E a volta ao Nacional, sete anos depois?
Aí, sim, foi uma volta pelo lado familiar. Eu precisei vir a São Paulo, porque o meu pai tinha falecido, e o doutor Ayrton [Santiago, presidente do Nacional] abriu as portas para mim. É um clube com que eu me identificava muito, eles me ajudando nessa parte e eu ajudando dentro de campo. Eu estava no São José e, no meio do campeonato [A Série A2 paulista de 2012.], o Paulo e o doutor Ayrton me ligaram. O Nacional estava numa situação difícil, estava na “Bezinha” [A Segunda Divisão, nome do quarto nível do estadual paulista.], financeiramente estava muito mal e não tinha condições de contratar ninguém. Eles iriam jogar a “Bezinha” apenas com os jogadores da base, e, como poderia ter apenas três jogadores acima da idade-limite naquela época, o Paulo fez a proposta para mim. Eu vim ver um jogo do Nacional. Ainda jogando pelo São José, tive uma folga e vim ver um jogo. O time era muito abaixo… por ter jogadores só da base, era difícil de se montar, né? Mas eu me comprometi com ele e falei que, assim que acabasse o campeonato [da Série A2], eu viria.

“A gente tem levado gols, e isso me incomoda demais.” Foto: Alexandre Giesbrecht (3/2/2016).

Acabei vindo, e mudou-se o cenário: graças a Deus, a gente conseguiu formar um time competitivo naquele ano. Por pouca coisa a gente não subiu. [O Nacional ficou fora da quarta fase por causa de apenas um ponto, e a derrota do Votuporanguense, em casa, para o Sport Barueri, na última rodada, foi questionada até mesmo pela imprensa de Votuporanga. Qualquer outro resultado teria dado a classificação ao Nacional.] Foram detalhes, mas, justamente por causa dessa inexperiência de nós, jogadores… mas o Cleytinho chegou, o Araújo chegou naquela época, e ajudaram muito… o Alemão, que hoje está no Bragantino… então, a gente formou um time que quase subiu. Um time que foi formado do nada. Se a gente tivesse subido naquela época, acho que hoje a gente estaria numa situação até melhor que a A3.

Então veio 2013, um ano meio “perdido”, já que o Nacional não conseguiu passar da primeira fase da “Bezinha”.
2013 foi uma gestão complicada, na verdade. A partir do finalzinho de 2012, entrou uma gestão aqui, em que se prometeu muito e cumpriu-se pouco. Formamos um time muito melhor, em termos de atletas, do que o de 2012. Alguns atletas de 2012 permaneceram, já mais experientes, chegaram outros atletas, bem mais qualificados, e conseguimos montar um time bom no papel. Só que, na prática, não foi muito bom. Então, foi um ano perdido, porque sair na primeira fase de uma “Bezinha” é um ano totalmente perdido. Foi um ano horrível para o Nacional, horrível para a gente, como jogadores. E teve ainda outra situação: a parceria saiu. Então, do meio de 2013 para frente, a gente não recebeu mais salários, a gente ficou numa situação financeira muito ruim, se abraçando realmente até o fim do ano. Montamos um time totalmente a ver navios, sem dinheiro, sem nada e conseguimos começar a “Bezinha” [de 2014].

Placar do Estádio Nicolau Alayon mostra 10 a 0 para o Nacional sobre o SEV Hortolândia, em 2013. Foto: Alexandre Giesbrecht.
“Você ganha por 10 a 0, mas está eliminado.” Foto: Alexandre Giesbrecht (21/7/2013).

Na última rodada dessa primeira fase, o Nacional derrotou o SEV Hortolândia por 10 a 0 e, mesmo assim, foi eliminado. Como foi o clima no vestiário depois de uma goleada como essa, que não valeu nada?
É, 2013 foi um ano difícil em termos de cabeça, porque nada dava certo pra gente. Perdemos para o SEV Hortolândia, em Hortolândia [pela última rodada do primeiro turno da primeira fase], um time bem inferior ao nosso, e praticamente tomamos um passeio lá.

2 a 0.
É, mas foi um passeio. Era para ter sido até mais. Então, foi um ano muito difícil. Depois de ter perdido lá para eles, ganhar em casa por 10 a 0…

E eles eram os líderes da chave até ali.
Eram os líderes da chave. Então você imagina o que se perdeu com esse time em 2013. A frustração é muito grande, porque você ganha por 10 a 0, mas está eliminado do campeonato, e sabendo que poderia ser campeão, igual [acabaria sendo] em 2014. Só que as coisas não acontecem do jeito que a gente quer e, infelizmente, desmontou-se aquele time todo, então você imagina o que foi: jogadores desempregados em julho [21 de julho], o que fariam da vida depois? Eu ainda continuei aqui no Nacional, fazendo outras funções, ajudando, mas foi um ano muito difícil.

O que você ficou fazendo aqui no Nacional?
Treinava goleiros e continuava me treinando, justamente para não sair daqui. Eu queria ficar aqui em São Paulo, não quis outras propostas. Fiquei porque eu achei que tinha uma missão aqui no Nacional. Eu não queria sair do Nacional sem obter esse acesso. O Nacional poderia estar numa A3, como está hoje, mas a “Bezinha” é muito cruel, né? A “Bezinha” é um campeonato muito cruel para qualquer um. O Nacional não merecia isso. O Nacional sempre foi um time de pelo menos segunda divisão, nem [de] A3 é. O Nacional sempre ficou na segunda, durante a maior parte de sua história, então cair para a terceira e, depois, cair para a “Bezinha”… numa “Bezinha” o Nacional não poderia ficar. Tem grandes times do passado que estão hoje na “Bezinha”, mas, na minha cabeça, pela minha história no clube, eu queria ter esse acesso, para eu um dia ter a minha consciência tranquila e falar: “O Nacional merece estar onde está.”

O ‘seo’ Zequinha tirou do próprio bolso e praticamente bancou os salários do time, então também foi responsável pelo título.

Carlão

E o que mudou para 2014? O ano foi uma espécie de “redenção”.
Aí o Carlinhos, treinador, também ajudou muito nessa época. Ele estava no Sub-17, e a gente teve que subi-lo para o profissional, por causa da situação financeira, e ele deu um êxito enorme pra gente. A gente não esperava, e, de repente, ele se tornou o grande nome naquele ano, pela sua competência dentro do campo e pela sua competência ao tratar com os jogadores. A gente conseguiu montar um time muito bom, competitivo e sem dinheiro, porque a gente ficou todo o primeiro semestre sem receber. A gente foi receber o primeiro salário só em julho daquele ano, então você imagina o que foi [para] esse time jogar o primeiro semestre sem dinheiro. Cada um ajudando no que podia… eu, com a situação financeira que eu tinha antes, ajudei pessoas e acabei gastando tudo o que eu tinha, para me manter aqui, por causa da minha família. E a gente conseguiu aquele êxito que foi 2014: ter o acesso, que foi uma coisa inacreditável, pelo que a gente passou no começo do ano. Aquele time foi guerreiro. Não só [ganhou] o acesso, [como] foi campeão. Ficou o primeiro semestre sem dinheiro nenhum; no segundo semestre, o “seo” Zequinha chegou — lógico, até me esqueci disso — para ajudar e ajudou muito os jogadores no segundo semestre. Ele tirou do próprio bolso para ajudar a gente: praticamente bancou os salários, então ele também foi um dos grandes responsáveis por esse título e por esse acesso em 2014.

Carlão, goleiro do Nacional, durante parada técnica em jogo contra o Grêmio Prudente, no Estádio Nicolau Alayon, em 2014. Foto: Alexandre Giesbrecht.
“Eu sou um dos líderes do time — tem mais, mas eu sou um dos líderes.” Foto: Alexandre Giesbrecht (11/10/2014).

E até houve horas em que parecia que tudo daria errado, como o jogo com o União Mogi, em que o Nacional precisava vencer e começou perdendo, ou o jogo contra o Grêmio Prudente, em que o Nacional perdia até os 30 minutos do segundo tempo e conseguiu a virada.
Foi um ano de superação, mesmo. A gente teve um jogo em Barretos, que foi o marco da nossa trajetória. Se a gente não empatasse o jogo, nós estaríamos fora do campeonato. Era em Barretos, contra o líder da chave, o time [com melhor campanha no campeonato], e a gente foi lá, estádio lotado, condições precárias pra gente… começamos perdendo, viramos e ganhamos o jogo, uma coisa em que ninguém acreditava. Acho que nenhum torcedor do Nacional acreditava. A própria diretoria já imaginava a gente fora do campeonato, e aí foi nossa grande virada. Depois, jogamos contra o União Mogi dentro de casa, ganhamos aquele jogo…

De virada.
De virada! E aí, pegamos uma chave na fase final [Nos dois grupos com quatro clubes, os dois melhores de cada chave garantiriam o acesso, com a decisão do campeonato se dando num confronto entre os primeiros colocados.], em que todo mundo falava “Não, a gente não vai conseguir…”, porque os melhores times do campeonato caíram justamente na nossa chave. E, estreando contra o melhor time do campeonato dentro de casa, conseguimos uma vitória muito boa [contra o Olímpia, por 3 a 1], jogando muito bem, o que nos deu uma confiança enorme no quadrangular.

O Nacional chegou à penúltima rodada com chance de garantir o acesso e a vaga na final por antecipação, caso vencesse o Primavera em casa.
Foi uma coisa que pra gente, na época… “Não é possível! A gente nunca consegue…” A gente tinha muita chance de [conquistar] o acesso bem antes, e acabamos empatando um jogo em que só deu a gente o tempo todo. Na última bola, o Caio — se eu não me engano, foi o Caio [Sim, foi.] — , dentro da área pequena, chutou, e o goleiro defendeu. Ali era o acesso. E ainda, à noite, a gente tinha a chance de obter o acesso com a vitória do Grêmio Prudente sobre o Olímpia, em Prudente. O empate ou a vitória do Grêmio Prudente nos dariam o acesso e, inacreditavelmente… 2 a 0 para o Grêmio Prudente, aos trinta minutos do segundo tempo, todos já estavam comemorando o acesso, e o Olímpia [conseguiu] uma virada que eu nunca tinha visto na vida. Aí veio na nossa cabeça que a gente precisava ir a Olímpia e pelo menos empatar o jogo, e o Olímpia só precisava ganhar da gente, porque no outro jogo a gente já sabia que o Primavera iria ganhar do Grêmio Prudente. Uma coisa que era muito favorável pra gente ficou praticamente desfavorável, porque 1 a 0 para o Olímpia nos eliminaria, e a gente perderia um acesso que já estava ganho. Então, aquele ano foi um ano realmente de superação. A gente foi a Olímpia, e foi um jogo totalmente nervoso, tenso. A gente fez 1 a 0, com um gol do Fernando, de falta, os caras empataram logo em seguida e aí foi até o fim aquela tensão, mas graças a Deus deu tudo certo, e a gente conseguiu esse acesso.

Uma coisa que era muito favorável pra gente ficou praticamente desfavorável: se a gente perdesse para o Olímpia, perderia um acesso que já estava ganho.

Carlão

O acesso e a vaga na final.
E aí o título… acho que sempre com dificuldade: perdemos o primeiro jogo, viemos para casa [para o jogo de volta], começamos perdendo, tivemos a virada e conseguimos o título. Esse ano, para mim, foi marcante, por toda essa história de superação que o time teve, financeiramente. Esse time foi muito guerreiro. Todos os jogadores que participaram dessa campanha, você tem que dar a mão a eles, porque foi, realmente, um ano muito difícil pra gente.

O elenco do Nacional campeão da “Bezinha” em 2014. Foto: Alexandre Giesbrecht.
O elenco do Nacional campeão da “Bezinha” em 2014. Foto: Alexandre Giesbrecht (1/11/2014).

E 2015? O Nacional também “bateu na trave” para subir, apesar de, no início, alguns apostarem que brigaria contra o rebaixamento.
A gente conseguiu manter uma base, o que é difícil. Todos os jogadores agregaram muito, e isso é muito importante num time, porque eles entenderam o sentido do que a gente tinha feito em 2014. Esse “estilo de superação” de 2014 ficou em 2015, então isso ajudou demais, com os jogadores qualificados que chegaram, acima da idade [Na A3, não existe a regra que limita a três por equipe os jogadores com mais de de 23 anos em campo.], que agregaram a esse estilo. O Carlinhos manteve uma espinha ali e formou um time que, por pouco… se a gente entrasse no quadrangular, eu tenho certeza absoluta de que a gente subiria. Na minha cabeça, já estava certo. Infelizmente, [terminamos com a] mesma pontuação e um número de vitórias abaixo do Grêmio Osasco, e ficamos fora. A gente ganhou de todos os times que subiram [Na verdade, ganhou do Juventus e do Atibaia, empatando com Votuporanguense e Taubaté.], então eu tinha certeza absoluta que a gente poderia até ser campeão daquele campeonato do ano passado. Infelizmente, não deu certo.

Mas se manteve de novo uma base. O Paulo conseguiu manter praticamente por um ano o time inteiro, sem dinheiro. Novamente, a gente teve problemas financeiros e, a partir de fevereiro, não recebeu mais salários. Aí o Paulo lançou a conversa com os jogadores, manteve o time, o Carlinhos saiu e veio o Tuca, treinador. E a gente manteve, para a Copa Paulista [torneio disputado no segundo semestre pelas equipes paulistas das três primeiras divisões que não se classificaram para a Série D do Campeonato Brasileiro], um time até acima do que a gente esperava: jogando contra times de primeira divisão, nós tivemos grandes jogos, saindo de um campeonato daquele nível numas quartas de final, com dois empates. [0 a 0 em casa e 3 a 3 fora contra o Linense, que ficou com a vaga por ter melhor campanha nas fases anteriores.] Se a gente passasse, seria outro marco em 2015 e a gente teria grandes chances de ser campeões, porque eram times que a gente tinha enfrentado, os que o Linense enfrentou depois. 2015 foi um ano muito bom, por mais que [o Nacional] não tenha tido conquistas, porque o Nacional disputou muito bem todos os campeonatos.

Imagina o Nacional disputando a Copa do Brasil neste ano… [O campeão da Copa Paulista ficou com uma das vagas de São Paulo na Copa do Brasil de 2016.]
[Abre um sorriso.] Seria uma “Bezinha” num ano e Copa do Brasil em outro. Seria um pulo enorme para um clube que, estruturalmente, não tem basicamente nada. Hoje em dia, chegou uma parceria que está tentando estruturar a base do futebol do Nacional novamente, mas é difícil. O Nacional ficou parado no tempo por muito tempo. Eles estão tentando, mas leva tempo, tem que ter conquistas, para você trazer uma base financeira. Então, eles entram, mas já entram com uma cobrança por conquistas, e isso aí é difícil no futebol. São competitivos, principalmente esses campeonatos [como] a A3, em que o nível é muito igual: você ganha do líder, empata com o penúltimo, então não tem como se falar “Nós vamos subir, está certo que a gente vai subir.”. É muito de momento, de superação de time e de uma arrancada do nada.

O empate com o penúltimo colocado [Em 24 de fevereiro, o Nacional cedeu o empate no último minuto para o Fernandópolis, em pleno Nicolau Alayon.] está começando a fazer falta…
Como fez no ano passado pra gente! A gente se cobrava muito sobre essas coisas para este ano, e acabou acontecendo. Vamos ver se a gente consegue, daqui para frente… amanhã [16 de março, contra o Guaratinguetá, jogo que terminaria com vitória por 1 a 0] já, com um confronto contra um time que está na zona de rebaixamento e, obrigatoriamente, a gente tem que ganhar o jogo para manter a chance de classificação.

Carlão cumprindo as funções de capitão do Nacional, contra o Assisense, em 2014. Foto: Alexandre Giesbrecht.
Carlão cumprindo as funções de capitão do Nacional, contra o Assisense. Foto: Alexandre Giesbrecht (24/8/2014).

Pelo menos nos últimos três jogos, você tem parecido meio incomodado com o desempenho do time, né?
Por mais que o ataque não faça, a gente [da defesa] não pode levar [gol], né? Infelizmente, a gente tem levado gols, e isso me incomoda demais, principalmente a gente não fazer e a gente levar. Isso vai me incomodando. A gente, aqui, sempre formou defesas muito boas, e a gente leva poucos gols em todos os campeonatos. Da “Bezinha” até este campeonato aqui, a gente foi considerado uma das melhores defesas em quase todos os campeonatos. [De fato, na Série A3 de 2015, apesar de o Nacional ter terminado na nona colocação, o time teve a terceira melhor defesa, com apenas um gol sofrido a mais que as duas primeiras.] Neste ano, começamos com quase quatro partidas sem tomar gol! E, desde o jogo contra o Sertãozinho, estamos tomando gol todo jogo. Isso me incomoda bastante. Sou um cara que me cobro, cobro a minha defesa e, às vezes, fico inquieto, porque, fazendo gol, o ataque ajuda a dar tranquilidade para a defesa. Isso me deixa inquieto dentro do gol, porque a única coisa que eu posso fazer é defender, então, ali atrás, a gente fica querendo ajudar de outra forma e acaba ficando nervoso, extrapolando…

Mas o pessoal leva na boa, não?
Há um respeito. Há um respeito grande. Eu sou um dos líderes do time — tem mais, mas eu sou um dos líderes. É um respeito. A gente não fala para difamar ou para manchar a imagem de ninguém; a gente fala porque a gente quer ganhar, e a gente não xinga ninguém a ponto de ofender a pessoa. A palavra do jogador dentro de campo não pode ser como no dia a dia: a gente tem que lidar com palavras fortes, mas a gente já está acostumado, então a gente tem que ter essa malícia. Mas, dentro do vestiário, se cobra muito, e cada um tem a sua cobrança: eles me cobram, eu cobro eles, e a gente vai dividindo isso, para não ter atrito.

Infelizmente, a gente tem levado gols, e isso me incomoda demais.

Carlão

Você já jogou no Nicolau Alayon como visitante?
Já. Foi… [Risos.] ruim, porque eu tinha acabado de sair, para a Inter de Limeira. É totalmente estranho entrar no vestiário do visitante, para mim não foi nada bom. Quando eu saí do Nacional, eu tinha acho que 45 partidas feitas. Nunca fui reserva no Nacional. Para mim, já era estranho naquela época. Hoje, se eu sair e voltar aqui, então, nem se fala.

A AlmaNAC não vai ter coragem de te xingar, ao contrário do que acontece com um goleiro visitante “normal”.
[Risos.] Eu acho que não, né? Nos outros times em que eu joguei… Em São José dos Campos, a torcida gritou meu nome, me aplaudiu. Eu acho que a AlmaNAC faria a mesma coisa comigo, por serviços prestados. [Mais risos.]

Wágner Asmir, goleiro do Flamengo de Guarulhos, ficou incomodado com a pressão da torcida atrás do gol do Nicolau Alayon, no jogo de 12 de março. Você chegou a conversar com ele depois do jogo?
Não conversei. Só no começo, eu o cumprimentei. Ele jogou na base [do Nacional], eu acho. No profissional, ele era reserva. Não tem como você [ganhar] o respeito [da torcida]. É a história. Não tem como eu pedir respeito para a AlmaNAC se eu não tiver uma história no clube. Eu posso ter passado por aqui e não ter tido uma boa passagem. Ou ter passado aqui e sido um mero coadjuvante. Em outros clubes, posso ter passado, e a torcida não grita o meu nome. A torcida do Flamengo, nesse jogo, gritou o meu nome, porque eles gostam de mim. [Risos.] Eu saí aqui, e um torcedor do Flamengo veio me dar a mão, porque ele me acha um bom goleiro, e gritaram o meu nome por causa disso. E eu nunca joguei no Flamengo de Guarulhos! Isso aí é um respeito que a gente vai criando nos jogos que disputa no Interior. Ele vai criar o respeito dele, e, no dia em que uma torcida quiser xingá-lo, ela vai. Quantas vezes eu não fui xingado no Interior de São Paulo? Em todos os estádios por onde passo, sou xingado. Há uma torcida que gosta mais e outra que gosta menos.

Você já chegou a se desestabilizar com isso?
[Enfático.] Não. Graças a Deus, eu tenho uma concentração… até, pelo contrário, eu crio uma “amizade” com os caras atrás do gol, que me xingam, quando o alambrado é muito próximo. Eles vão me xingando, e eu vou dando risada, falando com eles. Até aqui, no próprio Nacional, pedi para a diretoria, uma vez, para não deixar a torcida adversária ficar atrás do gol, porque era o único clube onde a torcida adversária tinha o benefício de ficar atrás do gol do dono da casa. Em alguns estádios do Interior eu já tinha esse problema e no meu estádio também tinha! Mas eu sempre crio uma amizade. O pessoal do Comercial, que veio no outro jogo aqui [em 20 de fevereiro], se lembrava de mim, por ter feito um jogo de acesso da A2 para a A1 contra o Comercial, em Ribeirão [Preto], e falava: “Pô, você tem que jogar no Comercial!” Então, a gente cria um laço com torcidas, mesmo não jogando pelo time delas. É legal você ter esse respeito da torcida adversária, mesmo você não tendo uma história dentro do clube. E isso o goleiro do Flamengo vai ter. Se continuar fazendo partidas como ele fez aqui contra a gente, ele vai ter.

Carlão, goleiro do Nacional, em ação contra o Noroeste, em 2016. Foto: Alexandre Giesbrecht.
“Assistir ao jogo da arquibancada não vai ser cômodo para mim.” Foto: Alexandre Giesbrecht (3/2/2016).

A torcida do Flamengo de Guarulhos gritou o meu nome, e eu nunca joguei lá!

Carlão

A decisão não é só sua, mas você pretende se aposentar no Nacional?
Sim. Pretendo agora, depois que acabar a Série A3, tendo o acesso, o título, ou não tendo, eu pretendo parar de jogar.

Mesmo com a Copa Paulista, no segundo semestre?
Não. Eu tenho contrato até maio com o Nacional. A diretoria ainda não me procurou para renová-lo. O futebol é difícil. Essa coisa de… principalmente eu, né? É difícil você ter 185 partidas pelo Nacional e ter um contrato de quatro meses para jogar. Não quero mais isso na minha vida. Prefiro trabalhar em outra área dentro do futebol, podendo até começar no Nacional, mas tendo uma estabilidade. Se eu tivesse um contrato de um ano, até pensaria, mas não tenho. Pensei bem, falei com a família e tomei essa decisão. Fisicamente, eu aguentaria jogar mais três, quatro anos, mas, financeiramente, a gente precisa tomar uma decisão na nossa vida, para almejar coisas maiores. Infelizmente, eu não tenho mais condição de jogar em time grande, então só jogo na vontade de estar dentro do campo. É isso que move o jogador de futebol. No dia em que acaba essa chama, a gente tem que parar. Eu ainda tenho muito isso, só que eu tenho que tomar uma decisão para a minha família também, que é financeira, e nisso não estou crescendo. Pelo contrário: a gente vem de salários atrasados, e isso prejudica muito a nossa vida pessoal. Se dependesse de mim, jogaria no Nacional mais uns três anos e ficaria aqui. Se tivesse uma condição legal para se jogar, eu jogaria. Mas não dá. Preciso ir para outra área, para ter um êxito financeiro, uma estabilidade financeira que eu perdi um tempo atrás. Então essa é a minha ideia: acabar o Campeonato Paulista e encerrar minha carreira.

Você já sabe que caminho quer seguir?
Eu sou um cara de campo. Não consigo ficar em escritório, na diretoria… eu preciso estar no campo. Eu vivo intensamente isso. Acho que vocês [torcedores] veem isso dentro do campo, como eu sinto o jogo, como eu vivo o jogo. Então eu não me daria bem fora de campo. Eu quero estar dentro do campo. Eu começaria como treinador de goleiros, batendo bola, ajudando o treinador. Depois auxiliar… treinador, mais para frente.

Podemos esperar ver você na arquibancada do Nicolau Alayon a partir do segundo semestre?
Sim! Essa é a minha intenção. Não vai ser cômodo para mim, porque a identidade do Carlão dentro do campo, dentro do Nicolau Alayon, ali nas duas áreas, é grande. Foram poucas pessoas que tiveram tanto tempo jogando no Nacional, poucos jogadores tiveram essa oportunidade de jogar por tanto tempo e poucos jogadores tiveram essa constância de jogos que eu tive. Neste ano, serão 55 jogos oficiais seguidos, sem ficar fora de nenhum. É muito difícil um goleiro de 35 anos estar presente em todas as partidas de três, quatro campeonatos seguidos. Para mim, a experiência, no começo, não vai ser muito agradável, vou querer estar dentro de campo, mas é preciso. Para a minha vida pessoal, eu vou ter que me acostumar, uma hora ou outra.