Há 25 anos, o real entrava em circulação. O Plano Real já tinha entrado em vigor alguns meses antes, mas foi em 1 de julho que o real começou, de fato, a circular. Vou contar o que me lembro dessa experiência. Eu tinha acabado de fazer dezoito anos, então tive pouca experiência com a inflação alta, baseada mais nas minhas mesadas (que tinham de ser “semanadas”, por causa disso) do que em experiências de vida adulta. Já contei um pouco do que me lembro sobre a hiperinflação.
Nos meses em que o Plano Real já estava em vigor, mas ainda sem a moeda circulando, a vida era mais confusa, porque, enquanto muitas coisas ainda eram precificadas em cruzeiros reais, outras o eram em URVs (unidade real de valor), que, na prática, já era o real, sem a moeda. Revistas da Editora Abril, por exemplo, que sempre sofreram por ter o preço impresso na capa, chegaram a ter o preço em URVs — mas, antes, a editora já tinha usado por algum tempo tabelas para as revistas infantis. Era comum ver nas capas: “CR$ = X4 (veja tabela)”.
A URV era convertida em cruzeiros reais pela cotação do dia, como se fosse uma moeda estrangeira. Ou seja, produtos e serviços cobrados em URVs não eram tão afetados pela inflação. Não me lembro se havia algum critério para estabelecer o que seria cobrado em URVs e o que não seria.
Em 1 de julho, finalmente acabou a “espera”. Teríamos uma nova moeda! (Isso parece algo emocionante hoje em dia, mas, desde 1986, o Brasil já tinha trocado de moeda outras quatro vezes, então não era nenhuma grande novidade. Havia até alguma descrença no mais novo plano.)
Naquela época, os jornais tinham poucas páginas em cores. No caso do Estadão, o caderno especial feito para o Plano Real, com algumas páginas coloridas, fez com que o caderno da Copa do Mundo ficasse totalmente em preto e branco. Até 30 de junho, acho que nenhuma pessoa “comum” tinha recebido uma nota de real. Já na manhã do dia 1, elas deveriam estar em circulação. Notas de cruzeiros reais ainda valiam, mas só para pagamento. Os estabelecimentos não podiam dar troco em cruzeiros reais; apenas em reais.
Por causa disso, naquela sexta-feira 1, os bancos abriram apenas para troca de cruzeiros reais por reais e para saques (em reais). No sábado e no domingo, apenas para troca da moeda antiga para a nova. A taxa de conversão oficial foi congelada em R$ 1 = CR$ 2.750 (o valor do dia 30). Certamente o número razoavelmente redondo não foi coincidência, já que a cotação do dia anterior tinha sido 2.698,46 cruzeiros reais.
Muita gente aproveitou a conversão para aumentar preços. Mas o Pão de Açúcar anunciou que tinha registrado em cartório os preços do dia 30 e que faria o mesmo com os preços do dia 1, já em reais — muitas lojas da rede ficaram fechadas no dia 30.
Como eu já estava de férias da faculdade, logo de manhã, meus pais pediram para eu ir à padaria. O pão nem era o mais importante: eles queriam é que eu conseguisse algumas notas de reais como troco. Por curiosidade, mesmo. É a minha principal lembrança desse dia específico.
Com o real, moedas voltaram a valer alguma coisa. Hoje soa estranho, mas com um real era possível comprar muita coisa em 1994. Para se ter uma ideia, uma edição do Estadão custava sessenta centavos, exceto aos domingos, quando custava um real. O jornal, inclusive, publicou em seu guia uma lista de produtos cujo preço deveria estar em torno de um real: uma lata de óleo de soja, um pacote com quatro rolos de papel higiênico “de boa qualidade”, um quilo de macarrão sêmola e um frasco de limpador Veja.
Ou seja, as pessoas voltariam a carregar moedas por aí. Nos tempos de inflação alta, moedas perdiam o pouco valor que tinham rapidamente. Ninguém as guardava. Isso mudou em 1994. Porta-moedas passaram a ser um sucesso de vendas (!).
Isso também significou que muitas moedas não ficavam em circulação. Até hoje existem campanhas para facilitar o troco e colocar as moedas em circulação, mas naquela época elas eram ainda mais constantes e insistentes. Padarias e supermercados faziam até promoções para quem pagasse suas compras usando moedas. No início de 1995, levei alguns calouros para fazer “pedágio” na faculdade. Trocamos as moedas em uma padaria, e elas valeram um pouco a mais que o valor facial, devido à escassez!
Numa das tentativas para acabar com a escassez de troco, em setembro o Governo criou a moeda de 25 centavos. Até então, o Brasil nunca tinha tido uma moeda com esse valor. Outro problema com as moedas foi que seus anversos (o lado com o valor) eram iguais, mudando apenas o número. Mesmo com tamanhos diferentes, isso causava alguma confusão. Por causa disso, a moeda de 25 centavos já teve um layout um pouco diferente das demais moedas.
Já em 1998, foi criada uma nova família de moedas, estas bem diferentes entre si. É a mesma família que é cunhada até hoje. As moedas antigas mantêm o seu valor facial, exceto a de um real, tirada de circulação em 2003, por causa do alto índice de falsificações. As moedas de um centavo e as cédulas de um real deixaram de ser cunhadas em 2005. Ambas ainda mantêm seu valor facial, porém valem mais, em teoria.

Não tenho nenhuma cédula de um real e não recebo nenhuma provavelmente desde aquela época, mas ainda tenho um jarro com cerca de 2,5 mil moedas de um centavo. Pena que estas não valem cem vezes seu valor facial…
Se separarmos os “três cruzeiros” que tivemos (1942–1967, 1970–1986 e 1990–1993), o real já é a moeda genuinamente brasileira mais longeva da história, tendo ultrapassado o primeiro cruzeiro há poucos meses. Porém, para alcançar o primeiro real (os famosos “mil-réis”), ainda falta muito: ele esteve em vigor no Brasil desde o período colonial até outubro de 1942. Se considerarmos apenas o Brasil independente, o real atual precisa durar mais 95 anos para alcançar os “mil-réis”.
Às vezes, imagino que, se um real valia 2.750 reais em 1/7/1994, quantos cruzeiros reais seriam necessários para comprar um real hoje, se não tivesse havido o congelamento e a moeda antiga ainda existisse em uma realidade paralela. Se a inflação de 1993 foi de 2.780,6%, imaginando-se que ela tenha se mantido estável, hoje um real valeria mais ou menos 1.269.003.911.274.547.000.000.000.000.000.000.000 (um undecilhão, 269 decilhões, 3 nonilhões, 911 octilhões…) de cruzeiros reais!



