Capa da Edição de Esportes de 8 de junho de 1970.

A história da Edição de Esportes

Hoje em dia, estamos acostumados a ter à disposição textos sobre os jogos da rodada segundos após o apito final, graças à Internet. Porém, cinquenta anos atrás, tínhamos de esperar mais tempo para ler comentários sobre o que tinha acontecido dentro de campo. Tinha-se de esperar o jornal da segunda-feira, e não eram todos os jornais que saíam nesse dia. Isso começou a mudar com a edição de segunda-feira d’A Gazeta Esportiva, que passou a sair ainda na noite de domingo, e não demorou para ela ter concorrência nessa empreitada.

Esta é a história dessa concorrência.


Desde 1927, o jornal O Estado de S. Paulo não saía mais às segundas-feiras, resultado de uma lei municipal que proibia o trabalho aos domingos. A lei provavelmente já havia sido revogada nos anos 1960, tanto é que a Folha de S. Paulo voltou a circular no primeiro dia útil da semana em janeiro de 1962 e outros jornais matutinos já tinham uma edição nesse dia no mínimo desde a década anterior — o Diário Popular tinha no mínimo desde 1941. O Estado, porém, demoraria mais dois anos e meio para concretizar um projeto que o fizesse voltar a ter presença nas bancas em todos os dias da semana.

Anúncio de lançamento da Edição de Esportes.
Anúncio de lançamento da Edição de Esportes.

Essa presença não foi total, pois a empresa optou por criar uma nova publicação, falando apenas da rodada esportiva de domingo, sob o nome Edição de Esportes. Assim, na noite de 13 de setembro de 1964, um domingo, o primeiro número da Edição de Esportes chegou às bancas da Capital e do interior do estado, com a data do dia seguinte. O novo jornal tinha dezesseis páginas e fotografias não apenas maiores, mas também em maior quantidade do que o normal do “jornal-pai” à época. Nove anos depois, a empresa listaria o que considerava as vantagens da EE na época de seu lançamento: “O texto leve, claro, sem os jargões e monotonias da crônica esportiva tradicional; as fotos grandes e bonitas, pelas quais, realmente, [se podia] ver o que acontece dentro dos campos.” Além da cobertura da rodada do fim de semana, o suplemento trazia também matérias “frias”, que tinham sido preparadas ao longo da semana.

“O editorial desse primeiro número”, escreveu o Estadão, quando do primeiro aniversário da Edição de Esportes, “esclarecia as finalidades do novo órgão, notando, entre outras coisas, que seu aparecimento correspondia a uma necessidade natural e até mesmo inevitável da maioridade que as atividades esportivas atingiam no País”.

No dia seguinte, o Estadão trouxe uma reportagem falando da boa recepção ao novo veículo em cidades como Campinas, São Carlos, Guaratinguetá e Botucatu — mas, curiosamente, não encontrei nenhuma menção à recepção em São Paulo. Em São Carlos, o lançamento mereceu até menção na câmara dos vereadores, possivelmente não muito atarefada:

Na sessão ordinária da Câmara Municipal de São Carlos realizada ontem, o edil Romualdo Pozzi propôs um voto de congratulações e aplausos à direção do Estado, pela iniciativa que teve em editar semanalmente a Edição de Esportes, “o que virá trazer informações completas sobre as ocorrências esportivas no País e no estrangeiro, que despertam o interesse do grande público do País”. Propôs ainda o vereador que fosse dado conhecimento à direção do Estado da deliberação da Câmara.

O Estado de S. Paulo

A ideia foi bem recebida pelos leitores, e um bom exemplo disso é que, por semanas, as sucursais do jornal no interior do estado seguiam enviando telegramas para informar do sucesso nas bancas locais. Quando do primeiro aniversário da Edição de Esportes, a Assembleia Legislativa encaminhou voto de felicitações, gesto repetido pelas câmaras municipais de Campinas e Botucatu, para ficar apenas nos registros publicados na edição de 16 de setembro de 1965 do Estadão.

O desafio era tentar sair o mais rápido possível aos domingos, sempre levando em consideração que os textos eram batidos a máquina, não havia internet para transmiti-los à redação e os sistemas de diagramação e impressão eram muito mais complicados que os atuais. Ainda assim, não raro o jornal conseguia estar nas ruas antes de todo o público deixar os estádios: “Por ocasião da vitória do Brasil sobre a [União Soviética], por 3 a 0, a 4 de julho [de 1965], a edição esportiva do Estado quebrou seu próprio recorde: o jogo terminou às 15h10, e a edição foi distribuída na cidade às 16 horas.”

O jornalista Luiz Roberto de Souza Queiroz contou, em seu livro Os Bastidores da Notícia: Histórias da Redação do ’Estadão’, um episódio ocorrido quando do lançamento da primeira edição:

O alvo era justamente disputar o mercado específico com A Gazeta Esportiva. A pequena redação então montada tinha como desafio rodar o jornal antes do concorrente. Isso acabou com um esquema de escrever as matérias sobre os jogos de futebol enquanto ainda se desenrolavam e foi uma festa, com toda a equipe nas oficinas […]. Ganhamos do concorrente por pouco mais de uma hora. Carlão Mesquita, que era o diretor da Edição de Esportes, ficou tão entusiasmado com essa pequena vitória, que jogou dois pacotes do jornal ainda “quentinho” dentro de um jipe velho […], chamou mais dois editores e [foi] para a Avenida Cásper Líbero, estacionando diante da saída das rotativas do concorrente. Fiquei em pânico quando Carlão saltou do jipe e, Edição de Esportes na mão, dirigiu-se à dúzia de jornaleiros que esperavam a saída da Esportiva, para comprar os jornais que iriam vender na Augusta, na Paulista e na Boca do Luxo. Num comício improvisado, Carlão distribuiu exemplares do novo jornal e tentou convencer os jornaleiros de que fariam melhor negócio se nos domingos à tarde passassem a vender a Edição de Esportes, porque “a Esportiva já era”, garantia.

Luiz Roberto de Souza Queiroz, jornalista
Anúncio publicado no Estadão de 2 de agosto de 1970.
Anúncio publicado no Estadão de 2 de agosto de 1970.

Mesmo quando não estava tentando bater recordes de antecedência, o ritmo de fechamento era puxado, não apenas na redação. Os textos sobre os jogos deviam estar prontos às 17 horas, ou seja, pouco após o apito final (os jogos, nessa época, começavam às 15 horas). Já as fotos eram reveladas pelos próprios fotógrafos, nos veículos que os conduziam de volta à redação. Às 19 horas, a edição começava a ser impressa, sendo distribuída de imediato, primeiro a grupos de “marreteiros”, como eram chamados os vendedores independentes que ficavam no centro da cidade, e depois a bairros e cidades mais distantes, pela frota de caminhões do jornal.

Para agilizar o processo, a Edição de Esportes “foi o primeiro jornal esportivo do Hemisfério Sul a transmitir e captar, com seus próprios recursos, fotografias de jogos de futebol pelo sistema de telefoto”, de acordo com reportagem sobre o primeiro aniversário do jornal. Um mês antes, o jornal já informara que “a Edição de Esportes iniciou o sistema de utilização permanente de telefotos entre os jornais brasileiros”. E descreveu o processo:

Para transmitir uma foto por telefone, basta ter a fotografia, um aparelho transmissor, um receptor e alguma sorte. A foto é colocada num cilindro no aparelho transmissor. O cilindro gira lentamente e, sobre ele, corre uma peça tendo na ponta uma célula fotoelétrica do tamanho de um alfinete. Do outro lado do cilindro, há um aparelho que capta o sinal luminoso e o transforma em sinal de rádio, que é mandado pelo ar ou por fio telefônico.

O Estado de S. Paulo

A própria composição do jornal era diferente da de seu irmão mais velho, com colunas mais largas, corpo de texto em tamanho maior e um uso mais extensivo de imagens, o que causava um impacto visual diferente, além de agilizar a diagramação.

Todas essas inovações ajudaram a dobrar a tiragem do jornal em poucas semanas, entre julho e agosto de 1965. Menos de seis meses depois, seria lançado o Jornal da Tarde, de que a Edição de Esportes é considerada um embrião. Porém, não apenas a EE seguiu sendo lançada por mais de sete anos, como também a notícia de lançamento do JT no Estadão não trouxe uma única menção à EE. Por outro lado, o mais novo integrante do grupo tinha um visual claramente baseado no do suplemento semanal. “Na Edição de Esportes, é possível encontrar muita coisa que depois foi utilizada no Jornal da Tarde, em termos de linguagem e em termos de grafia e diagramação”, explicou o jornalista Miguel Jorge, em entrevista publicada no blog Quíper.

Em 1968, o reconhecimento veio por meio do Prêmio Esso de Jornalismo, conquistado pelos repórteres Vital Battaglia e Hedyl Valle Júnior, com a reportagem “Juiz, ladrão e herói”. O bicampeonato do prêmio viria já no ano seguinte, com “O jogador é um escravo”, de José Maria de Aquino e Michel Laurence. Nesse mesmo ano, “Apresentamos o campeão”, também de Laurence, ganhou prêmio dado pela Federação Paulista de Futebol à melhor reportagem sobre a fase final do Campeonato Paulista e “É a volta do senhor do futebol”, de Battaglia, ganhou o “Pena de Ouro”, da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp). Nos cinco anos de vida do jornal, foi a décima premiação ganha por uma reportagem ali publicada.

Todo esse sucesso permitiu que, em novembro de 1970, a Edição de Esportes passasse a ser impressa em offset, assim como o irmão JT (o Estadão, com maior tiragem e maior número de páginas, seguiu sendo impresso em letterpress). Os tempos de pujança, porém, estavam por terminar.


O último anúncio da Edição de Esportes publicado no Estadão, em sua edição de 23 de dezembro de 1972.
O último anúncio da Edição de Esportes publicado no Estadão, em sua edição de 23 de dezembro de 1972.

Em dezembro de 1972, anúncios da Edição de Esportes foram publicados pela última vez no Estadão. O do dia 10 destacava um torneio de xadrez de San Antonio, no Texas, onde o enxadrista brasileiro Mequinho estava competindo, que receberia “cobertura completa” do jornal. Já o último saiu na edição do dia 23, de maneira bem tímida: com apenas duas colunas, apenas avisava que “a Edição de Esportes estará nas bancas hoje, logo após o jogo Palmeiras × Botafogo”, a decisão do Campeonato Brasileiro daquele ano.

Ainda não era o fim da EE, embora ele estivesse próximo. Quem comprou o Jornal da Tarde de 16 de abril de 1973 encontrou, ao lado da cobertura do clássico entre São Paulo e Corinthians disputado no dia anterior, um aviso aos leitores, informando que, dali a uma semana, a Edição de Esportes passaria a ser encartada no JT em formato tabloide, saindo às segundas-feiras: “A Edição de Esportes, em sua nova fase, como suplemento do Jornal da Tarde e com a união de duas grandes equipes jornalísticas, continuará seguindo quem arremessa, pilota, salta, cavalga, corre, esmurra, nada, veleja e, principalmente — esta não é a maior paixão do nosso povo? — quem chuta uma bola com força e sabedoria.” A mudança não mereceu menção nas edições do Estadão de 15 e 17 de abril (o jornal não circulou no dia 16, uma segunda-feira).

Aviso aos leitores publicado no Jornal da Tarde de 16 de abril de 1973.
Aviso aos leitores publicado no Jornal da Tarde de 16 de abril de 1973.

As dezesseis páginas em formato tabloide representavam metade do conteúdo da primeira Edição de Esportes, mas foram chamadas de “um jornal dentro deste jornal” na chamada (reproduzida ao lado) que o Jornal da Tarde colocou no pé de sua primeira página de 23 de abril.

Na capa do suplemento, cinco fotos ocupavam quase todo o espaço, com destaque para a de Pelé na vitória do Santos por 1 a 0 sobre o Guarani, até então líder do Campeonato Paulista, que abriu caminho para o título do primeiro turno. O conteúdo foi bastante eclético, com o boxe e o turfe ganhando duas páginas cada, enquanto xadrez e automobilismo ganharam uma cada, além de uma página falando de basquete, tênis, vôlei e judô e algumas notas sobre outros esportes aparecendo na seção “Resumo”.

As demais oito páginas e meia trataram de futebol e incluíam uma entrevista exclusiva com o técnico franco-argentino Helenio Herrera, considerado o criador da posição de líbero. A seção “Placar” trouxe resultados dos campeonatos Português, Italiano, Búlgaro, Grego, Francês, Iugoslavo, Húngaro, Argentino, Espanhol, Inglês, Alemão Ocidental, Peruano, Colombiano e Paraguaio. Na última página, uma reportagem especial questionava: “Eles merecem o nome de artilheiros?” Ela tratava das más fases dos outrora artilheiros Alcindo, César Maluco e Toninho Guerreiro, respectivamente defendendo Santos, Palmeiras e São Paulo.

A estreia da Edição de Esportes como suplemento do Jornal da Tarde, no acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo.
A estreia da Edição de Esportes como suplemento do Jornal da Tarde, no acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

A marca “Edição de Esportes” continuaria a ser o nome do caderno esportivo do Jornal da Tarde por mais de três décadas (embora tenha deixado o formato tabloide menos de dois anos depois). Em algum momento na segunda metade dos anos 1990, a marca deixou de ser usada, porém acabaria voltando em agosto de 2003, com um grande lançamento e mais de quarenta páginas, novamente em formato tabloide. Três anos depois, o JT deixou de usá-la, mudando o nome “JT Esportes” em todos os dias da semana. A última “Edição de Esportes” publicada pelo JT saiu em 3 de abril de 2006.

Com o fim do jornal, em novembro de 2012, o Estadão ressuscitou a marca e passou a usá-la aos domingos e segundas-feiras. Em 2016, entretanto, esses cadernos já tinham apenas mirradas quatro a seis páginas, sendo publicados também em alguns sábados. A partir do início de 2017, a marca foi silenciosamente encerrada: O Estado deixou de publicar um caderno dedicado a esportes aos domingos e segundas-feiras, mantendo um caderno com míseras quatro páginas aos sábados, agora chamado apenas de “Esportes”. A Edição de Esportes merecia um fim mais honroso.

A última vez que o Jornal da Tarde usou a marca “Edição de Esportes”.
A última vez que o Jornal da Tarde usou a marca “Edição de Esportes”.

Fotos: Alexandre Giesbrecht.