Edições do Lance! em 2011.

Um arquivo vivo de notícias

Em 21 de março passado, pouco após a pandemia de COVID-19 praticamente parar o mundo, o diário Lance! anunciou que estava interrompendo a circulação de sua versão impressa. “Canais de distribuição fechados e uma circulação cada vez menor de pessoas nos levaram a tomar a decisão de suspender temporariamente a edição impressa do diário Lance!“, explicou o jornal em editorial, adicionando que a produção de conteúdo seguiria sendo feita no site e nas redes sociais da publicação.

Um mês e meio depois, ainda sem perspectiva do fim da pandemia, o jornal entrou em contato com assinantes por email informando que ainda não havia previsão de retorno da circulação do jornal: “Como isto pode se alongar, estamos decidindo ressarcir os nossos assinantes com o valor dos exemplares que não foram entregues até o fim do contrato.” Como assinante da versão digital, recebi esse email e posteriormente fui creditado com o valor na minha conta bancária.

Mesmo sem a pandemia ter acabado, o futebol voltou (em São Paulo, no fim de julho), mas o Lance!, não. E, aparentemente, nem vai voltar mais, afinal já estamos chegando a outubro, e não há nenhum sinal de uma volta. Não que o jornal viesse sendo um exemplo de conteúdo: nos últimos anos, suas edições eram uma pálida lembrança dos áureos tempos iniciais, quando o jornal ganhava prêmios de design e de jornalismo. Mas, com o fim do Jornal da Tarde, do Diário de S. Paulo e dos cadernos de Esportes do Estadão e da Folha, era o último bastião de notícias diárias em formato impresso acessível online (o Agora não tem uma versão online).

Desde setembro de 2012, eu baixava religiosamente todas as edições em PDF do Lance!, um acervo que já usei em pesquisas inúmeras vezes. Inclusive, arrependo-me de não ter pensado em fazer isso antes, já que o jornal disponibilizava uma versão em PDF no mínimo desde 2005 — inclusive, ao menos em determinado período sem nem mesmo a necessidade de se ter uma assinatura para baixá-lo, o que explica eu ter um ou outro exemplar da primeira década do século em meu computador.

Foi assim que, há um mês, resolvi criar minha própria versão. Não para distribuí-la, mas para consumo próprio, pois sei que no futuro precisarei pesquisar notícias de agora, e não é nada fácil fazer isso online, mesmo com as ferramentas de pesquisa avançada do Google: muitas vezes, eu preciso pesquisar um período de mais do que alguns dias, e não é possível fazer isso com sites.

Minha primeira tarefa foi criar um modelo no InDesign, que facilitasse o reaproveitamento de páginas e a automatização de processos, como a diagramação de fichas técnicas. Criei os estilos de caracteres e de parágrafos necessários e fui fazendo ajustes, não só com o primeiro conteúdo, mas também ao longo dos dias seguintes.

Edições diagramadas em agosto de 2020.
Edições diagramadas em agosto de 2020.

O conteúdo foi tirado dos quatro principais portais esportivos de São Paulo: Gazeta Esportiva, ge (o antigo Globo Esporte), Lance! e Uol Esporte. Só que não me restringi ao copiar+colar que seria imaginável — e muito mais fácil. Além da hierarquização das notícias, fiz edições nelas para padronizar estilos (como usar “doze milhões de reais”, em vez de “R$ 12 milhões”, ou aspas para citações, em vez de travessões) e ainda removi trechos que se repetiam em outras matérias.

Sim, porque praticamente todos os textos contêm um parágrafo recapitulando qual foi o último jogo do time e/ou qual será o próximo. Além disso, os quatro portais têm questões que dificultam a vida do leitor, mas trato disso em outro texto.

Um mês depois, consegui manter a frequência diária das diagramações. Já são sessenta páginas, uma média de cerca de duas por dia. Tenho levado entre quarenta minutos e pouco mais de duas horas, dependendo do volume de notícias do dia. Dias após jogos em geral têm mais notícias. Inclusive, o recorde foram as cinco páginas do dia seguinte ao Majestoso do fim de agosto.

Ainda não sei por quanto tempo conseguirei manter essa rotina. Obviamente, o fato de estar trabalhando de casa e não ter de levar meus filhos à escola contribui para eu ter um pouco mais de tempo para trabalhar nisso. Talvez eu simplesmente tenha de desistir, dependendo de como minha rotina mudar após a pandemia. O importante é que, ao menos por ora, estou curtindo fazer isso. Diagramação sempre foi um hobby meu, por mais estranho que seja ter um hobby que é o trabalho de muitas pessoas.

Já me perguntaram se eu pretendo distribuir esse conteúdo, e a resposta é não. Ainda que muitos sites simplesmente copiem conteúdos de portais e coloquem esse conteúdo copiado ao lado de anúncios que proporcionam algum dinheiro aos donos com o trabalho dos outros, eu pretendo respeitar não apenas os direitos autorais, mas também o trabalho de setoristas e fotógrafos.