Uma sugestão ao Twitter

Já não é de hoje que as redes sociais têm sido pressionadas para tomar atitudes a fim de combater inúmeros problemas que nelas proliferaram desde sua grande popularização, iniciada na segunda metade da década de 2000. Fake news, bullying, contas anônimas de ódio, excesso de exposição… a lista é grande, mas a lista de ações tomadas pelas plataformas e que deram certo é muito pequena. Em geral, foram ações isoladas, que eliminaram um problema e criaram outro. Como a decisão de catalogar cada clique de cada usuário, para enviar uma ineficaz mensagem de confirmação cada vez que alguém tentar tuitar um link em que não clicou antes.

No mês passado, por exemplo, o Twitter criou uma nova opção, em que o autor de um tuíte pode limitar as pessoas que podem respondê-lo. A ideia inicialmente parece boa, mas ela só impede que se responda determinados tuítes, algo que só pode ser configurado antes de o tuíte em questão ser publicado. Isso sem falar que ela tem o potencial de impedir que fake news sejam contestadas em respostas ao tuíte.

Por causa desse tipo de impacto colateral é que eu gostaria de colocar aqui uma sugestão ao Twitter para combater a toxicidade de sua plataforma. Em princípio, minha ideia parece não ter efeitos colaterais negativos, mas provavelmente tem, especialmente quando outras pessoas pensarem em outras situações.

Essa nova funcionalidade seria restrita a respostas a tuítes. Qualquer resposta poderia ser reportada, porém apenas pelo autor do tuíte original que foi respondido. Não da maneira como qualquer tuíte hoje pode ser reportado, que depende de uma ação do próprio Twitter, mas sendo computado em uma espécie de “placar” do usuário em questão, com a quantidade de reportes. Seriam estabelecidos limites de reportes.

O primeiro seria um pouco mais alto: não tenho uma sugestão embasada de número, mas talvez uns vinte fossem o bastante? Quando esse patamar fosse atingido, o usuário seria suspenso por alguns dias. Após essa primeira suspensão, o limite seguinte seria mais baixo (Talvez a metade? Talvez um quarto?) e a consequente suspensão seria mais longa. O terceiro limite seria muito mais baixo (Talvez apenas um?) e a consequente suspensão seria definitiva.

Esse “placar” seria visível apenas ao próprio usuário, em um processo transparente, que mostraria, inclusive, quais foram os usuários que o reportaram e referentes a quais tuítes. Assim, o usuário reportado saberia com qual perfil ele deveria tomar mais cuidado ao interagir ou simplesmente evitar interagir.

Como os reportes só poderiam ser feitos por usuários que tiveram seus tuítes respondidos, isso em teoria impediria o abuso da ferramenta. Mesmo que um determinado perfil quisesse prejudicar alguém, ele só poderia fazê-lo se essa outra pessoa efetivamente respondesse os seus tuítes.

Também seria importante colocar algumas “travas de tempo”. Uma para impedir que tuítes mais antigos que um determinado tempo fossem reportados. Um dia? Três dias? Uma semana? Assim, um usuário não poderia “se vingar” de alguém reportando tuítes antigos, para aumentar o “placar” de seu desafeto. Outra para remover do placar tuítes reportados depois de algum período. Dois meses? Seis meses? Um ano? Tudo dependeria da quantidade necessária para uma suspensão. O prazo não pode ser curto nem longo demais.

Outra possível “trava” seria impedir que uma mesma conta reportasse tuítes demais em um curto período de tempo. Em vez de estabelecer um limite rígido para todos os usuários, o ideal talvez fosse colocar um limite baseado na quantidade de seguidores de cada conta e/ou de quantas respostas essa conta recebeu num período imediatamente anterior, a ser determinado. Todas essas “travas” de tempo e de quantidade estariam também no painel de consulta de cada usuário, com transparência.

Isso pode inibir debates? Sim, pode. Vai acontecer de pessoas pararem para pensar se vale a pena responder um tuíte, porque poderão ganhar um reporte por essa resposta. Mas acho que é justamente isso que estamos buscando hoje: que as pessoas pensem mais antes de tuitar e, mais especificamente, antes de responder a tuítes.

Outra opção seria não colocar em vigor a suspensão automática, mas colocar a cargo do próprio Twitter a análise das situações das contas mais reportadas em cada semana ou em cada mês. O problema aqui é que dependeríamos de ações do Twitter, que, como sabemos, costumam ser demoradas, ineficazes e até injustas em muitos casos.

Não consegui pensar em nenhuma situação que tornaria possível o abuso nesse sistema, mas não duvido que exista alguma, talvez algumas. Se você conseguir pensar em alguma, procure-me no Twitter. Este texto não pretende ser a versão definitiva desta funcionalidade (que tem uma chance entre infinitésima e minúscula de ser implantada), mas apenas iniciar um debate a respeito. Se ao menos a ideia chegar a alguém do Twitter para consideração, já vai ser alguma coisa.