“O governo quer eleições”, disse o ministro da Justiça, Mílton Campos, em discurso na Câmara dos Deputados, em 22 de março de 1965, o dia seguinte à eleição que elegeria José Vicente Faria Lima à Prefeitura de São Paulo. “No empenho de estruturar em sólidas bases o regime, vem o governo, como se vê, procurando dar garantias aos pleitos eleitorais e, sabendo que isto não é tudo, vem promovendo reformas que assegurem o regime não apenas nas suas fontes, mas nos seus mecanismos e no seu presente fundamento. Prova disso, e prova cabal, foi o pleito de ontem na capital de São Paulo, especificamente objeto de indagação do requerimento de minha convocação.”
Em sua fala, Campos também garantiu que seriam realizadas eleições para governador em onze estados ainda naquele ano, conforme originalmente previsto. “[As eleições são] o ato mais feliz da Revolução”, aplaudiu Carlos Lacerda, governador da Guanabara, nem de longe o único a se pronunciar a respeito. De fato, com a eleição realizada na maior cidade do País no dia anterior, tudo parecia indicar que não haveria, mesmo, problemas no processo eleitoral após o golpe militar do ano anterior.
Ledo engano: as eleições até foram realizadas, mas seu resultado, com vitórias da oposição em cinco estados, desagradou tanto a ditadura, que o presidente Castello Branco baixou o Ato Institucional número 2, basicamente uma “virada de mesa”, que extinguia os partidos de oposição e “mostrava a cara do regime militar”. Mas esta é outra história.

A eleição para prefeito em São Paulo, cinquenta anos atrás, ainda correu normalmente, num domingo, 21 de março, entre as 8 e as 17 horas, com seus oito candidatos: Auro Soares de Mora Andrade (Partido Social Progressista/Partido Social Democrático), o vice-governador Laudo Natel (Partido Libertador), o deputado federal Franco Montoro (Partido Democrata Cristão/Partido Socialista Brasileiro), o brigadeiro José Vicente Faria Lima (Movimento Trabalhista Renovador/Partido Republicano), o senador Juvenal Lino de Matos (Partido Trabalhista Brasileiro/Partido Trabalhista Nacional), o deputado estadual Januário Mantelli Neto (Partido Rural Trabalhista), o engenheiro Paulo Egydio Martins (União Democrática Nacional) e o deputado estadual Pedro Geraldo Costa (Partido Social Trabalhista).
Além de votar no prefeito, os 1.518.753 eleitores aptos a votar escolheram, em votação separada, o vice-prefeito. Os candidatos eram mais obscuros, do ponto de vista atual: David Lerer (PSB), José Cirilo (Partido da Representação Popular), Leôncio Ferraz Júnior (MTR/PR), Manoel Figueiredo Ferraz (PSD/PSP), Mário Osassa (PRT) e Mário Teles (PL). Renato Ferrari (PDC) tinha desistido de concorrer.
A declaração de Campos podia até dar a impressão de que, ao menos naquele momento, o processo democrático de uma eleição era bem visto pela ditadura, porém havia vozes dissonantes, que tentaram até impedir a eleição paulistana, como o general Luiz Carlos Guedes, um dos líderes do golpe militar do ano anterior. Ele declarou que a eleição paulistana não deveria ser realizada, porque todos os candidatos eram “subversivos”.
Outro líder do movimento, o general Amauri Kruel, tentou colocar panos quentes na questão, afirmando que era favorável às eleições, mas logo em seguida outro general, o futuro presidente Arthur da Costa e Silva, chamou o pleito paulistano de “eleiçãozinha”: “Estou no firme propósito de não me envolver em assuntos políticos, porque minhas tarefas administrativas no Ministério da Guerra e responsabilidades de comando são de tal ordem, que ocupam a atividade, atenção e energia de qualquer chefe. E não há crânio que aguente pensar em política e eleiçãozinha em São Paulo.” Olympio Mourão Filho, o general que detonara o golpe, por sua vez, declarou concordar com Kruel.
“Nesse episódio das eleições, o Governo [Federal] não se vem caracterizando por uma linha, por assim dizer, firme, o que se reflete no noticiário político, tornando perplexa a opinião pública”, escreveu a Folha em editorial. “Num regime de plena vigência da Constituição, já é anomalia atribuir ao presidente da República a faculdade de admitir ou vetar eleições normalmente previstas. De qualquer formar, deve-se reconhecer ao marechal Castello Branco, supremo intérprete dos ideais revolucionários, o direito de, em face desses ideais, considerar inconvenientes ou não os pleitos marcados para os próximos meses (capital em março e onze estados em outubro.”
Castello via-se pressionado por outros militares para adiar as eleições de março e também as eleições para governador. Para isso, cogitou-se declarar São Paulo e outras cidades paulistas como bases militares, o que impediria as eleições. O presidente, entretanto, acabou declarando ser favorável a que elas ocorressem nas datas marcadas, a não ser que viesse a ocorrer “fato novo na já constatada radicalização das campanhas”.
No mesmo dia em que Castello deu sua aprovação, o candidato Montoro fez um apelo a seus concorrentes: “Diante do insistente noticiário sobre os esforços que ponderável força política vem fazendo para obter do Governo Federal o adiamento das próximas eleições municipais em São Paulo, dirigimos veemente apelo aos demais candidatos e a todos os partidos, para que se definam publicamente em favor da realização das eleições, como passo indispensável para a restauração democrática do País.”
“Pareceu-me que [o general Guedes] estava pedindo uma resposta à altura”, escreveria Montoro em seu livro Memórias em Linha Reta, publicado postumamente em 2000. Assim, ele conta que convidou os demais candidatos para reunirem-se com ele na Assembleia Legislativa, a fim de tomar uma posição conjunta e pública. (Não encontrei registros desse evento nem no Estadão nem na Folha, apenas a declaração reproduzida no parágrafo acima.) Só que nenhum deles apareceu. Sozinho diante da imprensa, ele teria exposto seu ponto de vista, na forma de quatro constatações e uma pergunta:
A constituição determina que as eleições se realizem. O Tribunal Eleitoral organizou o processo e fixou as datas. O presidente da República garante a sua realização. Aí vem um general e diz que não deve haver eleições. Quem é o subversivo?
Franco Montoro
Pouco antes da eleição, Montoro publicaria um anúncio em jornais, onde mencionava, entre outros feitos: ”Enquanto outros se calavam, lutamos pela realização [destas] eleições. E vencemos.“ O fim da campanha também foi marcado por boatos que acabaram por não se confirmar, como o da prisão de Jânio Quadros, por seu apoio a Faria Lima, e da desistência de Montoro. Sim, fake news sendo usadas já naquela época.

O jornal O Estado de S. Paulo claramente apoiou a candidatura de Paulo Egydio Martins, da UDN, inclusive em editorial: “A razão e o bom-senso estão, neste caso, a apontar-nos o caminho a todos. E os riscos que a defecção de alguns pode trazer para os interesses municipais aí estão para aconselhá-los a formar no grupo dos que, em número cada vez maior, se dispõem a sufragar o nome do sr. Paulo Egydio. (…) Vale muito mais uma derrota ao lado de um homem da estatura moral e intelectual do engenheiro Paulo Egydio do que a subida ao poder com uma das sete figuras que neste momento personificam a anti-Revolução.” (Na época, o jornal ainda apoiava o governo militar.) Esse apoio também ficava evidente no fato de que o único candidato a prefeito com anúncio nas páginas do periódico, ao menos no dia da eleição, foi Paulo Egydio.
Além disso, a ele foi reservado nessa edição um espaço de destaque, com a única foto da primeira página, sobre a legenda “O candidato democrático” e um texto propagandístico: “Na campanha do engenheiro Paulo Egydio não houve comícios. O candidato democrático preferiu dialogar francamente com o povo em suas casas, em seus locais de trabalho, nas ruas, apresentando planos de administração.” Já na Folha de S.Paulo do mesmo dia, o único anúncio de candidato a prefeito era de Faria Lima, mas a cobertura noticiosa era bem mais imparcial.
Com cédulas de papel, a apuração seria feita no Pavilhão Internacional do Parque do Ibirapuera: todas as urnas seriam para lá transportadas, e os trabalhos começariam às oito horas da segunda-feira. Na edição de terça-feira do Estadão, as eleições já tinham sido realizadas e Faria Lima já era o virtual vencedor, mesmo antes do fim da apuração, mas novamente o candidato da UDN teve direito a destaque na capa do Estadão, com a maior foto da página — a única dedicada à eleição — e uma legenda que destacava sua “expressiva votação”.
O adjetivo “expressiva” foi claramente um exagero: na primeira parcial divulgada pel’O Estado, na edição de terça-feira 23, Paulo Egydio ocupava apenas a quarta colocação, com 51.738 votos pouco mais de um quinto da votação de Faria Lima e a metade da recebida por Laudo Natel. No placar final, ele ainda seria ultrapassado por Pedro Geraldo Costa, ficando na quinta posição, com 89.546 votos.
Por outro lado, a expectativa era de que ele não passasse do sexto lugar, com votação ainda mais modesta. Como candidato “da Revolução”, Paulo Egydio passou, segundo Rolf Kuntz escreveu no Jornal do Brasil, no teste, justamente por não ter tido grande rejeição ou apoio. “Lançado em cima da hora, teve uma campanha sem brilho e não fez nenhum comício”, escreveu Kuntz. “A legenda de seus cartazes (‘Quem é Paulo Egydio?’) transformou-se em piada. Mas Paulo sexto [em alusão à previsão de sexto lugar e ao nome do papa eleito em 1963] surpreendeu, derrotando Lino de Matos e Franco Montoro.”
O senador Lino de Matos, de fato, era um candidato forte. Mesmo senador, foi eleito para a prefeitura paulistana em 1955, assumindo o cargo em julho. Porém, renunciou em abril de 1956, devido a pressões para que abdicasse do cargo de senador. Ele preferiu manter o cargo na capital federal. Em 1963, foi reeleito para o Senado, com quase um milhão de votos no estado, sendo também o mais votado da Capital.

A eleição de Faria Lima foi sacramentada com 463.364 votos, uma vantagem confortabilíssima sobre Laudo Natel, que teve 188.737. Moura Andrade terminou em terceiro, com 126.822. O vice-prefeito eleito também foi da coligação MTR/PR: Leôncio Ferraz teve 310.889 votos, também uma vantagem confortável (o segundo colocado, Mário Teles, teve 184.512).
A apuração foi considerada bastante rápida. Quatro horas após seu início, as projeções já indicavam a vitória de Faria Lima, embora o primeiro voto aberto tenha sido dado a Moura Andrade. Ainda na primeira urna, o brigadeiro assumiu a liderança, que não largaria mais. Nessa primeira urna, o prefeito eleito tivera 132 votos, contra 42 de Laudo Natel. A “votação expressiva” de Paulo Egydio foi de apenas dois votos ali.

Apoiado por Jânio Quadros, Faria Lima era a aposta do ex-presidente em sua eterna guerra com Adhemar de Barros, então governador do estado. Isso foi confirmado pelo presidente da Assembleia Legislativa, Francisco Franco, do Partido Republicano: “A eleição do senhor Faria Lima é mais uma frente de luta contra o senhor Adhemar de Barros.” Naquele mês, Franco havia sido eleito presidente da Assembleia, um duro revés para Adhemar.
O governador, que apoiara Moura Andrade, esperava eleger um aliado na Prefeitura e depois outro, nas eleições para o governo do estado, em 1966, o que lhe garantiria dois fortes apoios para a eleição presidencial seguinte. Como sabemos, acabaria não fazendo nenhuma diferença, pois essa eleição acabaria sendo indireta, graças ao já citado AI-2, isso sem falar que o próprio Adhemar teria seu mandato de governador cassado em 1966.
Adhemar, claro, não sabia de nada disso e tentou minimizar os efeitos da derrota de seu candidato em pronunciamento na televisão. “Eu estou contente”, garantiu. “Não estou abatido, e vamos caminhar para a frente e para o alto.” Ainda assim, tentou descolar sua imagem da de Moura Andrade, ressaltando que o senador não era o candidato do seu partido e que o “prestígio pessoal do governador” era intransferível.
O prefeito Francisco Prestes Maia, hospitalizado desde janeiro, permaneceu neutro na eleição, mas sua esposa, Maria, declarou ter votado em Faria Lima. Prestes Maia morreria pouco mais de um mês depois da eleição, em 26 de abril. Faria Lima, que já havia assumido nessa data, propôs que a Avenida Anhangabaú recebesse o nome de Avenida Prestes Maia.
Ainda na segunda-feira, antes mesmo do resultado final da eleição paulistana, o Partido Socialista Brasileiro soltou uma nota que, diante dos fatos que se desenrolariam nos meses e anos seguinte, soa quase inocente: “Mesmo antes de concluída a apuração geral, nós, socialistas, consideramos que a realização das eleições foi um importante passo para a reconquista da legalidade democrática em nossa Pátria. O povo compareceu em massa e votou num dos candidatos que identificou como o ‘candidato dos cassados’. (…) A eleição de 21 de março marca o início do fim das tentativas de instaurar uma ditadura em nosso país.”
O vice-governador Laudo Natel também comemorou sua segunda colocação, como demonstraram as palavras do deputado estadual Salvador Julianelli, o principal articulador de sua campanha: “Sozinho, apoiado apenas pelo PL, partido pequeno, e uma parte dissidente do PR, derrotou o presidente do Senado, senhor Auro de Moura Andrade, com o apoio do governador Adhemar de Barros, o candidato da UDN, senhor Paulo Egydio, e outros fortes candidatos, como o senador Lino de Matos e o deputado federal Franco Montoro.” Apesar do discurso, Natel deve ter ficado frustrado por perder para o adversário que tinha derrotado na eleição para vice-governador de 1962.
Faria Lima faria um governo marcado por um grande número de obras viárias, incluindo diversos viadutos, a reforma da Praça Roosevelt e a Ligação Leste–Oeste, quase todas voltadas para o uso de automóveis. Apesar de O Estado de S. Paulo ter apoiado Paulo Egydio, o jornal acabaria aprovando a administração do sucessor de Prestes Maia. Faria Lima seria sucedido por Paulo Maluf, nomeado pelo presidente Arthur da Costa e Silva, em 1969. Após Maluf, seis outros prefeitos foram nomeados pelo governo do estado, até que, em 1985, foi realizada a primeira eleição para o cargo na capital paulista em vinte anos. Ela acabou vencida por Jânio Quadros, personagem importante na eleição anterior.
Uma última curiosidade: dos sete adversários de Faria Lima naquela eleição de 1965, três acabariam no comando do governo estadual, ao longo das duas décadas seguintes: Laudo Natel (1966–1967 e 1971–1975), Paulo Egydio Martins (1975–1979) e Franco Montoro (1983–1987), apenas o último eleito por voto direto. Faria Lima poderia também ter sido nomeado governador, tanto é que já fazia contatos políticos no Interior no mínimo desde 1968, porém morreria apenas cinco meses após deixar a Prefeitura.
Foto: Diário Popular
