No dia 17 de abril de 2007, levei um cliente venezuelano para visitar alguns apartamentos na Zona Sul. Um deles ficava no trecho do Panamby espremido entre o Cemitério do Morumby e a Marginal Pinheiros. O andar era alto e proporcionava uma ampla vista da região até a Avenida Giovanni Gronchi. À frente dessa avenida, entretanto, um dos mais gritantes exemplos do contraste entre pobreza e riqueza que se vê diariamente no Brasil: a favela Paraisópolis, literalmente encostada nos prédios de alto padrão localizados na avenida. É quase um clichê usar essa imagem para ilustrar a situação social brasileira. Saquei minha câmera, bati a foto e mais tarde publiquei-a em meu Flickr (que não atualizo há mais de sete anos). Cerca de quatro anos depois, ela passou a ser, disparado, a foto mais acessada naquela conta, com quase três mil acessos, contra uma média de cerca de cem nas demais, naquela época.
Demorei um pouco para descobrir de onde vinham tantos acessos, já que as ferramentas de controle que o Flickr oferecia a contas gratuitas como a minha não permitem saber a origem das visitas. Uma pesquisa no Google provavelmente matou a charada: um site em japonês, com um texto cuja URL fala em “rich-poor-divides” trazia a minha foto, sob a legenda que o Google Translate traduziu como “Apartamento elevado onde o grupo está”. Sob a foto, um link para a página da mesma no Flickr, que certamente turbinou as visitas. O texto foi publicado cerca de cinco meses após a foto. Dois anos depois, em 2009, o folheto em polonês do I Forum Metropolitalne também trouxe, em sua página 65, a foto que eu bati. Assim como no site em japonês, o crédito foi dado apenas como “Autor: things.i.like.in.sao.paulo”, que é o meu nome de usuário no Flickr, isso apesar de no perfil da conta constar meu nome. Mas o que vale é a intenção, e são casos bem diferentes dos que simplesmente optaram por não dar crédito algum.
Em 2010, foi a agência Getty Images que descobriu a imagem e solicitou que eu me inscrevesse em seu serviço para fornecer a foto a eventuais interessados. Foi o que fiz, sem grandes expectativas, e, de fato, até hoje nenhuma “cópia” foi vendida. O preço do licenciamento em royalty free da foto para impressão é de 375 dólares. (Devido ao contrato com a Getty Images, a foto acima é a única feita por mim neste site que não está liberada em Creative Commons. Até por isso, ela não tem link para uma versão maior.)
É claro que esta foto não chegou nem perto de se tornar algo “viral”, e três mil visitas no Flickr ao longo de quatro anos, com mais mil visitas nos nove anos subsequentes, não representam praticamente nada. Mas não deixa de ser curioso que a foto tenha sido descoberta em três países tão distintos como Japão, Polônia e Estados Unidos, mas não no Brasil. Isso pode se dever, claro, ao fato de a legenda original no Flickr estar toda em inglês. Mas também pode ser que a imagem simplesmente não tenha mais impacto por aqui, de tão acostumados que estamos com ela. Se for isso, mesmo, não é algo de que devemos nos orgulhar.
Foto: Alexandre Giesbrecht.
