Coleciono a revista praticamente desde que aprendi a ler, com um intervalo quando a fase “Futebol, Sexo e Rock ‘n Roll” estava no fim. Nos últimos anos, vinha comprando a revista muito mais para manter a coleção do que por prazer em lê-la por inteiro. Agora decidi: minha coleção encerra-se com a edição de junho.
Não, não acho que a revista esteja um desastre; em quase todos os meses eu encontro pelo menos uma ou duas matérias interessantes. Mas acho que uma ou duas matérias por mês é muito pouco. Já disse e repito, mesmo sabendo que fui ignorado em todas as vezes que disse isso: a revista tem buscado matérias apenas sobre os doze maiores clubes do Brasil, em vez de buscar matérias que tenham uma história interessante para ser contada. Na falta do assunto interessante, fala-se do goleiro que brinca de bonecas com a filha, do tratamento que o volante dedica ao cabelo e até de assuntos relacionados com futebol, mas que simplesmente não são boas histórias. Embora eu seja torcedor de um dos doze maiores clubes, gosto de ler sobre futebol, e o futebol não se resume a eles.
Continuo fã do projeto gráfico da revista, da seção Personagem do Mês e das colunas do Aznar e do Dagomir. Fora isso, não posso dizer que eu vá sentir falta de muitas outras coisas. Não sei dizer quando foi a última vez que a revista me surpreendeu, quando foi a última vez que folheei uma edição de cabo a rabo e fiquei entusiasmado para começar a lê-la.
Placar optou por dedicar 100% de seu conteúdo ao público “pop”, grande parte dele formado por pessoas mais jovens que eu (81% do público da revista está entre 10 e 39 anos, mas imagino que boa parte desse percentual esteja na faixa abaixo dos 30), que compram a revista esporadicamente. Que são atraídos por uma foto grande de um jogador na penumbra com os braços cruzados e cara de mau quando veem a capa na banca. Aliás, veem mesmo? Porque em quase qualquer banca que eu vou Placar — e, a bem da verdade, as outras revistas sobre esportes — está sempre escondida.
Pois bem, pretendo tornar-me um leitor esporádico. Quando eu vir uma reportagem que me interessa, decidirei se comprarei a revista ou não, assim como faço com tantas outras. Quando alguma capa me chamar a atenção (algo pouco provável, haja vista que no máximo três ou quatro chamaram a minha atenção nos últimos seis anos), decidirei se comprarei a edição. Se alguma revista “cair” na minha mão, lerei. Mas não mais a comprarei todos os meses.
Isto não é um protesto nem uma chantagem. É uma constatação: Placar já não é mais feita para mim. Eu até não importaria em ver um conteúdo 75% “pop”, desde que os outros 25% fossem dedicados aos que gostam de ler, não aos que são fãs de determinados times e personagens do futebol. Mas, por mais fiel que eu fosse como leitor, sou apenas um dos 155 mil leitores mensais da revista, que comprava apenas um dos 55.858 exemplares de circulação líquida. É uma constatação a que eu não gostaria de ter chegado, mas três anos de Primeiras Folheadas serviram como uma boa reflexão. Se a revista pouco mudou nos últimos seis anos, não tem por que mudar agora. Mas, se um dia mudar, para algo mais próximo do que eu espero como leitor, voltarei a comprá-la, com o maior prazer.
O texto acima foi enviado à redação da revista por email. [Atualização 23/5/2020: O email nunca recebeu uma resposta. Eu voltei a comprar a revista com frequência depois de algum tempo, mas hoje só a compro esporadicamente, como passei a fazer em 2009.]
Foto: Índice da Placar número 1.331, de junho de 2009. Crédito: Alexandre Giesbrecht.
