Estación del Anticuário, no Tren de la Costa, em Buenos Aires, em 2006. Foto: Alexandre Giesbrecht.

Diário de viagem (3)

Buenos Aires — O dia de hoje começou um pouco mais tarde, porque tínhamos de esperar o tal do Banco Piano abrir, às dez, para tentarmos trocar a tal da minha nota de cinco dólares que ninguém aceitava. O caixa do banco ainda me explicou que argentino é desconfiado e medroso, então não aceitava, mesmo. Só que não valia a pena para mim trocar a nota, porque o custo seria de… cinco dólares!

Tempo perdido, andamos até a Avenida 9 de Julio para pegar um táxi, a fim de irmos até o trem para San Isidro. Ainda não tínhamos conseguido informações que batessem a respeito desse trem, e logo descobrimos por quê: nas linhas de trem, pode-se ir para San Isidro. Só que o que queríamos era o Tren de la Costa. O  taxista foi a pessoa que finalmente nos fez ver que nenhuma das informações que tínhamos recebido antes estava errada — o negócio é que elas eram sobre coisas diferentes.

Ele acabou nos deixando, sei lá se por tentar arrancar dois pesos a mais ou por ignorância de onde era a estação inicial, na terceira estação, Libertador. Foi lá que pegamos o trem, com destino à Estação Delta. Já sabíamos que valia mais a pena parar em cada estação do que fazer o passeio de barco na última, e não nos arrependemos dessa decisão.

Cada estação é mais bonita que a anterior, e você não espera muito pelo trem seguinte, sempre a cada vinte minutos. É óbvio que em algumas estações você vê o que tem que ver em cinco, mas o tempo que sobra pode ser usado para bater alguma foto mais pitoresca, sei lá.

Na estacão de San Isidro, bem no meio da linha, paramos por mais tempo. Há um shopping ao ar livre colado nela, cheio de lojas e restaurantes. Decidimos que era lá que iríamos almoçar, mas só na volta. No Delta, passeamos um pouco em volta, mas descobrimos que não era possível avistar o delta do Rio da Prata sem o passeio de barco mais demorado (e, ainda assim, seria visto de longe). Há um parque aquático, quiçá estilo Wet ‘N Wild, mas só abre aos fins de semana, então não tivemos sequer a oportunidade de conferir.

Era hora, pois, de pegarmos o trem seguinte. As duas primeiras estações depois do Delta constavam no mapa como não tendo nada, e, como já tínhamos visto na ida que elas eram muito parecidas com uma outra, nem paramos. Paramos na seguinte, Marina Nueva, onde o mapa dizia que havia um pequeno restaurante em estilo holandês. Muito agradável, mas já sabíamos que não iríamos almoçar lá.

Fizemos mais fotos pitorescas e voltamos à plataforma para aguardar o próximo trem. Oh-oh. O próximo trem despontou no horizonte e… estávamos na plataforma errada! Como era a nossa primeira parada na volta e, para complicar, o trem corre pelos trilhos da esquerda, acabamos nos confundindo. Saímos correndo, cruzamos na frente do trem (onde, aliás, o sinal estava fechado para cruzamentos) e felizmente o maquinista esperou chegarmos, porque senão teríamos de esperar mais 20 minutos.

Trem chegando à Estación San Isidro, do Tren de la Costa, em Buenos Aires. Foto: Alexandre Giesbrecht.
Trem chegando à Estación San Isidro, do Tren de la Costa, em Buenos Aires. Foto: Alexandre Giesbrecht.

Voltamos a San Isidro, comemos em um restaurante, onde a garçonete estava em seu primeiro dia de trabalho e tinha de consultar o chefe a cada pergunta que fazíamos, passamos no mercado para fuçar um pouco e voltamos à plataforma — a certa — para seguir viagem. Vale um parêntese quanto ao mercado. O desodorante que costumo usar, que já sabíamos ser fabricado na Argentina, custa aqui praticamente um terço do preço do Brasil. No-brainer

Na volta, também passamos pela segunda estação, a que não tínhamos visitado na ida. É talvez a mais aconchegante, com seus muros de tijolinhos. Seguimos até o fim da linha e decidimos voltar de trem (o metropolitano) e metrô. O trem é acabadão, lembrava bastante os da linha B da CPTM. Seguimos até Retiro, uma das duas estações principais de Buenos Aires. O trajeto no início da viagem passava por zonas mais residenciais, de classe média, para depois, mais próximo de Retiro, passar por zonas industriais, abandonadas mas ainda muito bonitas, por serem do começo do século passado.

A Estação Retiro também é muito bonita, com seu estilo inglês. Lá, pegamos o metrô. Não precisamos nem trocar de linha para chegarmos ao hotel. Se ontem tínhamos andado apenas uma estação, hoje não andamos muito mais: meras duas estações, passando inclusive pelas duas por onde já tínhamos passado.

Ao chegarmos ao hotel, finalmente tivemos um momento de descanso, algo que não existiu nos dois primeiros dias de viagem. Deixamos para sair a Puerto Madero por volta das oito da noite e chegamos ao hotel antes das seis. Minimamente descansados, saímos. Pedimos um táxi, mas o mensageiro disse que outro mensageiro estava tentando pegar dois táxis para outros hóspedes e estava tudo lotado. Ele também perguntou aonde íamos e, diante da resposta, disse que poderíamos ir a pé se seguíssemos pela Corrientes, uma rua mais larga e iluminada. Depois, em Puerto Madero seria ainda mais tranquilo.

Boa pedida. Fomos andando. Não era longe, e o único dissabor foi atravessar as duas avenidas antes de Puerto Madero, verdadeiros infernos na terra. Aliás, vale mais um parêntese sobre o trânsito em Buenos Aires. Além de caótico, os motoristas não respeitam nada! Aqui, faixas de pedestres são ignoradas, assim como as faixas das pistas (às vezes, em uma avenida de quatro faixas, a impressão que fica é de que há umas nove, dez faixas), e fila dupla é quase regra, assim como fechamento de cruzamento. Se o trânsito não anda, dane-se, o pessoal fica na faixa de pedestres, no meio do cruzamento, onde for. Fico realmente preocupado com meus clientes argentinos dirigindo em São Paulo. A esta altura, eles já devem ter uma coleção de multas da nossa CET. Porque os CETs deles observam as mais grosseiras infrações e dão risadas, não multas.

Percorremos quase todo Puerto Madero, em direção ao restaurante Siga La Vaca. Eles cumprem a promessa de mesa farta com autoatendimento e tudo incluído no preço. O problema é que você precisa gostar muito do corte argentino, e acho que esse não era o nosso caso. A surpresa veio na hora da conta.

O que sabíamos é que era 26 pesos por pessoa. Quando vimos o cardápio antes de comer, descobrimos que no jantar de segunda a quinta era 31 pesos. Mas nos cobraram 36 pesos. Por quê?, perguntamos. Porque era véspera de feriado — e realmente no cardápio era mencionado esse preço para vésperas de feriados. Descobrimos, em cima da hora, que amanhã será feriado! Um feriado inédito, por causa dos trinta anos do golpe militar. A garçonete ainda aproveitou para nos avisar que nos feriados por aqui quase tudo fecha. E as coisas que deixamos para comprar no último dia?

Começamos a voltar na direção do hotel, a pé, em busca de um trânsito menos congestionado para pegar um táxi. Sim, quase dez da noite, e o trânsito ainda estava bem congestionado em Puerto Madero. Seguimos, atravessamos as avenidas infernais, a Mel começou a ficar com medo das ruas mais vazias e demoramos para achar um táxi. Finalmente conseguimos, e foi muito bom, porque fatalmente passaríamos pelas redondezas da Plaza de Mayo, onde haveria um show de rock (!) em homenagem ao feriado.

No caminho até o hotel, vimos muitos jovens vestindo camisas pretas de bandas de rock seguindo em direção à Plaza de Mayo. Para piorar, várias ruas estavam interditadas, e o taxista foi obrigado a dar voltas. Ainda bem que o táxi aqui é muito barato.

Pedimos para ele nos deixar nas Gallerías Pacífico, para que tentássemos comprar ao menos algumas das coisas a que nos tínhamos proposto de início, especialmente os alfajores. Tinha acabado de fechar… Ah, sim, havia uma loja da Havanna na Calle Florida, a um quarteirão do hotel. Também fechada… Tudo fechado. Ao menos achei uma banca aberta, onde pudemos comprar as duas revistas que eu queria.

A noite acabou mais cedo do que imaginávamos. Dez e meia, e já estávamos de volta ao quarto! A continuação, com o dia de amanhã, será escrita do Brasil…

Foto: Estación del Anticuário, no Tren de La Costa, em Buenos Aires. Crédito: Alexandre Giesbrecht.