Shean Donovan vence Evgeni Nabokov nas finais de conferência de 2004. Foto: Mike Blake/Reuters.

Previsão: grande série longa

Os Flames se classificaram para os playoffs como sextos colocados e chegaram às finais, surpreendendo a todos. Não, a frase anterior não se refere aos playoffs deste ano. Ela refere-se à temporada de 1985–86, quando o time de Calgary foi derrotado nas finais pelo Montreal Canadiens em cinco jogos. O roteiro repete-se agora, dezoito anos depois, mas ainda não se sabe se o fim será o mesmo.

Muita coisa mudou nesse tempo todo. A última vez que um time canadense chegou às finais da Copa Stanley foi em 1994, quando o Vancouver Canucks perdeu em sete jogos para o New York Rangers, numa série emocionante. A última vez que o Calgary tinha ganho uma série de playoffs antes do início de abril fora em 1989, quando também levara o título. O panorama das finais acabou restrito aos mesmos times de sempre, com uma ou outra zebra passeando pelo caminho. Apostar em um dos favoritos era sempre a coisa mais previsível a se fazer.

E agora? Fazer o quê?

Esta é, sem dúvida, uma das finais mais imprevisíveis de que se tem notícia. Os Flames chegaram como zebras, mas ficou muito difícil apostar contra eles depois do que eles fizeram nas fases anteriores, eliminando três campeões de divisão (incluindo aí um que detinha o Troféu dos Presidentes), todos com mais de cem pontos acumulados na temporada regular. Enquanto isso, o Lightning chegou aqui com razoável facilidade, confirmando o favoritismo no Leste, conquistado depois de terminar a temporada regular com a melhor campanha da conferência.

Alguém pode até dizer que o cenário é o mesmo do ano passado, mas aponto duas diferenças cruciais.

1. Os Ducks chegaram lá graças ao goleiro Jean-Sébastien Giguere, que estava em grande fase. Se dependessem exclusivamente do desempenho ofensivo, possivelmente teriam ficado pelo meio do caminho. Os Flames têm, é verdade, um goleiro de elite em Miikka Kiprusoff, mas também têm um líder artilheiro em Jarome Iginla, uma defesa equilibrada e outros fatores que compõem um campeão.

2. O adversário dos Ducks era o experiente New Jersey Devils, acostumado à pressão dos playoffs – e das finais. O Lightning tem um elenco bom, mas não tem vivência nos playoffs. Martin St. Louis, artilheiro do time, disputou exatamente seis jogos de playoffs a mais que Iginla. Mesmo o veterano Dave Andreychuk nunca tinha antes chegado às finais.

Ou seja, apesar do favoritismo do Lightning pela posição na tabela, as coisas parecem mais iguais do que se pode imaginar a uma primeira vista. Cada time leva vantagem em duas categorias, com um empate. O Lightning leva a melhor no ataque e nos times especiais; os Flames, na defesa e no técnico. O empate se dá no gol. Se o Lightning tem o mando de gelo, os Flames têm três dias de folga a mais.

Tudo muito igual, tudo muito imprevisível. Uma varrida de qualquer dos lados parece praticamente impossível. Um jogo 7 parece extremamente provável. Aliás, para nós, do Brasil, seria muito bom ver a série seguir até a sétima partida, já que, dependendo das finais de conferência da liga de basquete norte-americana, apenas os jogos 6 e 7 das finais da Copa Stanley deverão ser transmitidos ao vivo para terras tupiniquins.

Por serem dois times sem um histórico de rivalidade, falta uma manchete para esta espera pelo jogo 1. É verdade que, com poucos jogos interconferências durante a temporada regular, é muito difícil ver uma grande rivalidade nas finais. Mesmo assim, no ano passado havia a briga particular dos irmãos Niedermayer. Neste ano, até havia a possibilidade de dois irmãos se enfrentarem nas finais, mas os Flyers de Keith Primeau e os Sharks de seu irmão Wayne foram eliminados na fase anterior.

Sobraram histórias menores, como a da dispensa de St. Louis pelos Flames em 2000. Mas, naquele tempo, a diminuta estrela do Lightning ainda era um reles jogador de terceira ou quarta linha, que marcara apenas dezoito pontos em 56 jogos, aos 24 anos. Há também a troca que mandou Craig Conroy para Calgary e Cory Stillman para St. Louis (a cidade), em março de 2001. Quem diria que, três anos depois, eles se enfrentariam nas finais? Mas houve aí no meio a troca que mandou Stillman para Tampa, o que tira um pouco do charme da coisa.

Sem um claro protagonista, resta ao menos um grande tema coletivo, que é a volta do hóquei ofensivo. Nenhum dos dois times chegou aqui jogando atrás para segurar o placar. Ambos são a síntese do hóquei voltado para o ataque – ao menos a versão atual, ainda bem distante daquela que costumava ser vista nos anos 1980. O próprio lema do Lightning é “Safe is death” (em português, algo como “segura, só a morte”). Esse lema provavelmente faria com que Jacques Lemaire, técnico do Minnesota Wild e inventor da famosa tática da armadilha, perdesse os poucos cabelos que ainda tem.

O jogo dos finalistas é muito mais baseado no ataque que na defesa. Ninguém descuida lá atrás, é verdade, mas eles parecem entender que só se vence um jogo marcando gols. Nas finais de conferência, já vimos duelos parecidos, já que tanto Sharks como Flyers jogam mais para frente do que para trás, mas agora veremos os dois vencedores digladiando-se.

Ainda não há rivalidade no confronto, mas isso não deve durar muito. A velocidade do Lightning contra a velocidade dos Flames deve ser o ingrediente certo para alimentar essa rivalidade latente.

Espere por uma série longa e, possivelmente por uma grande série. Talvez a melhor desde que o último time canadense chegou às finais.


Texto originalmente publicado em TheSlot.com.br.

Foto: Shean Donovan vence Evgeni Nabokov nas finais da Conferência Oeste. Crédito: Mike Blake/Reuters.