Rogério Ceni comemora seu gol contra o Palmeiras. Foto: Alex Silva/Estadão.

Com apatia e sorte

Para um são-paulino, sempre é bom vencer o Palmeiras, mas a alegria pela vitória em um clássico não pode se sobrepor a um fato gritante: desde o jogo contra o Corinthians o São Paulo não joga bem. Hoje foi mais um bom exemplo. O time fica apático, como se esperasse ganhar a partida simplesmente por osmose. O primeiro gol saiu em um lance de sorte, mas só serviu para confirmar no subconsciente são-paulino que é só entrar em campo que a vitória vem. Ué, a imprensa não exalta o time a toda hora? Até outro dia, a seqüência invicta não estava em quase 30 jogos? É só comparar os dois meios de campo — e olha que o São Paulo estava com um time misto mais para reserva que para titular —, que se percebe um grande desnível, ao menos no papel.

Então, com 1 a 0 no placar aos cinco minutos de jogo, não parecia haver um são-paulino em campo que não imaginasse o jogo ganho. Dá para contar nos dedos de um joelho quantos chutes a gol o São Paulo deu antes de o Palmeiras conseguir empatar, graças a um pênalti bem mandrake “cometido” pelo zagueiro Breno. Mas não se pode dizer que fosse injusta a igualdade. O pior é que não se pode nem dizer que o time tenha acordado com o gol. Continuou naquele banho-maria, achando que os gols brotariam de esporos.

E não é que brotaram?

Em um lance corriqueiro na área, Alex Silva foi derrubado por Dininho. Não que não tenha sido falta; é que, fora o famigerado Castrilli, juiz nenhum costuma apitar esse tipo de pênalti. Rogério Ceni desta vez nem quis saber de dar friozinho na barriga da torcida e chutou forte, no canto, quase no fim do primeiro tempo.

Gol de Richarlyson contra o Palmeiras. Foto: Fernando Santos/Folha de S.Paulo.
O golaço de Richarlyson. Fotos: Fernando Santos/Folha de S.Paulo.

Seria de se imaginar que Muricy daria uma bronca nos seus comandados durante o intervalo. Aliás, ele deve até ter dado. O time é que parece não ter escutado. Chute a gol parecia ser um pecado capital. Mas Richarlyson resolveu pecar. De longe, mandou um foguete que entrou na gaveta do gol do Palmeiras, e o São Paulo contabilizava, assim, três gols em três chutes.

Talvez não tenha feito mais porque não chutou mais. Ou até tentou chutar, mas a zaga palmeirense conseguiu travar. Os adversários ainda tentaram ameaçar alguma coisa, mas nem parecia que a derrota os empurrava para fora da zona de classificação do Campeonato Paulista. A defesa são-paulina, que há um bom tempo tem sido o ponto forte do time, segurou lá atrás. O novato Breno, apesar de ter sido inocente no lance do “pênalti”, foi bem. Alex Silva ainda dá uns sustos lá atrás, mas continua melhorando no apoio. E Miranda tem sido eficiente jogo atrás de jogo. Talvez até o problema ofensivo venha de um excesso de confiança na zaga. Se ela está tão bem, um golzinho marcado apenas deveria resolver qualquer jogo. Ou não.

Se o São Paulo parar de imaginar que vence qualquer jogo por pensamento, vai voltar a ser candidato aos principais títulos do ano. Se continuar jogando como tem jogado nos últimos cinquenta dias, vai morrer na praia em todas as competições, possivelmente até mais cedo do que imagina.

Foto de abertura: Rogério Ceni comemora seu gol de pênalti. Crédito: Alex Silva/Estadão.