Camisa vestida por Ramzi Abid no Pittsburgh Penguins. Foto: The Igloo Locker Room.

Ligando o modo de reconstrução

Craig Patrick finalmente fez o que já deveria ter feito no início da temporada passada: iniciou um processo de reconstrução. Essa palavra, “reconstrução”, não é usada com frequência aqui no Brasil, talvez porque aqui não há aquele sobe-e-desce de times que ganham alguns títulos e depois passam anos na lanterna. Por aqui, são sempre os mesmos a ganhar títulos, com raras exceções. E isso torna um pouco mais difícil a tarefa de compreender o porquê de isso acontecer.

No caso dos Penguins, era a única opção. Depois de tentar enganar a torcida por quase duas temporadas, o gerente geral Patrick finalmente resolveu aceitar a realidade. Ele não comparou nenhum dos novos jogadores a Ron Francis, como fizera quando da troca que mandou Jaromír Jágr para Washington. Ele não garantiu uma vaga nos playoffs, como fizera na data-limite de trocas do ano passado. Ele não disse que os Pens agora são um time melhor, como fizera depois de praticamente doar Alexei Kovalev para os Rangers. Ele nem sequer tentou dar grandes esperanças para a próxima temporada.

“Agora, até o próximo ano, estamos em modo de sobrevivência”, disse, na coletiva de imprensa. “Definitivamente, estamos em um estágio de reconstrução, e pode-se ver isso em algumas das coisas que fizemos [no dia-limite de trocas, terça-feira]. Estamos procurando ter sucesso quando chegar o novo acordo coletivo de trabalho.”

Já se falou aqui nestas páginas muito sobre o acordo de trabalho que expira ao fim da próxima temporada. Se ele realmente instituir um teto salarial, como é esperado, o time pode ter esperanças de voltar à elite do hóquei. As trocas da última terça-feira não trouxeram nenhuma estrela. Ao menos, não tiraram as poucas que restaram: o atacante Martin Straka e o goleiro Johan Hedberg ficam, apesar de toda a especulação que os rondou nos dias que antecederam a data-limite. O que as trocas trouxeram? Basicamente, promessas.

A maior delas talvez seja Ramzi Abid, filho de um tunisiano e uma escocesa, que veio dos Coyotes na troca que mandou o central Jan Hrdina e o zagueiro François Leroux, que andava em Wilkes-Barre, para Phoenix. Junto com ele, vieram o zagueiro Dan Focht e o ponta-esquerda Guillaume Lefebvre — este último não teve nem tempo de ir a Phoenix, já que tinha sido trocado pelos Flyers no dia anterior, na troca que mandou Tony Amonte para os Flyers.

Em trinta jogos nesta temporada, Abid tem dez gols e oito assistências. Seus dois primeiros gols na NHL vieram justamente contra os Pens, em dezembro. Ele é projetado como um atacante de força, com um toque de artilheiro: na liga júnior de Québec, chegou a marcar 135 pontos com o Chicoutimi, em 1997–98.

Lefebvre é visto com bons olhos, principalmente pelo pessoal de Wilkes-Barre, contra quem ele sempre tinha boas atuações. Já Focht foi a 11.ª escolha geral do recrutamento de 1996. Nesta troca, os Penguins perderam Hrdina, sempre decente nos faceoffs, mas sempre questionado pela aparente falta de garra e de vontade de chutar a gol. Leroux havia ganho um contrato no início da temporada mais por amizade com Patrick do que pela sua “técnica”.

A primeira troca do dia tinha tirado Wayne Primeau de Pittsburgh. Em troca, Matt Bradley veio de San Jose. Primeau nunca deu certo em Pittsburgh, enquanto Bradley teve grandes números em 2001–02 pelos Sharks, embora não os estivesse repetindo (assim como o próprio time) neste ano, antes de uma contusão no pulso que encerrou sua temporada.

Depois da troca de Hrdina, a segunda do dia, foi a vez de o zagueiro Marc Bergevin dar adeus ao time, trocado pelo atacante Brian Holzinger, do Tampa Bay. Esta foi a única troca em que o time não recebeu um jogador com salário menor que o do jogador que saiu. Em compensação, o Lightning vai pagar a metade do salário de Holzinger na próxima temporada. Holzinger, de trinta anos, também foi um dos dois únicos jogadores com mais de 25 anos que chegaram.

Não muito depois, mais um zagueiro deixou a cidade: Ian Moran, o jogador que, com exceção de Mario Lemieux, estava havia mais tempo na equipe, foi para Boston, em troca de uma escolha de quarta rodada no próximo recrutamento.

E Patrick ainda não tinha terminado. O último a sair foi o ponta-direita Shean Donovan, que vinha bem como matador de penalidades. Ele foi para Calgary, em troca do central Mathias Johansson, o outro jogador com mais de 25 anos (tem 29), e do zagueiro Micki DuPont. Johansson jogou até o ano passado na liga sueca, sendo um atacante mais defensivo. DuPont foi o único mandado direto para Wilkes-Barre, o que, inclusive, facilitou sua locomoção. Ele estava no time de baixo dos Flames, em Saint John, e pôde contar com a carona do ônibus do time, que iria jogar em Wilkes-Barre na quarta-feira.

Nenhum destes jogadores vai fazer os Penguins ganhar todos os seus últimos jogos, para tentar entrar nos playoffs pela porta dos fundos, mas o corte de custos que foi feito possibilitará ao time diminuir os prejuízos nesta temporada e na próxima, além de, mais importante, deixá-lo mais preparado para o teto salarial que pode vir em 2004. Se não vier, então a torcida de Pittsburgh pode se preparar para alguns poucos anos de sofrimento antes de o time se mudar para outra cidade.

Foto: Camisa usada por Ramzi Abid em Pittsburgh. Crédito: The Igloo Locker Room.