Jogadores do Grêmio, abraçados, deixam o campo.

A Noite da Vergonha

Com os resultados da penúltima rodada da primeira fase do Campeonato Paulista mantendo as chances de classificação do Corinthians, que dependerá de um mau resultado do Guarani diante do São Paulo no último jogo, muitos são-paulinos dizem que torcerão contra o próprio clube, apenas para prejudicar o rival. Esse não é um pensamento com que eu concorde, porque não consigo conceber que o destino de um rival seja mais importante que o destino do clube para que se torce.

Mas e se a derrota for melhor para o destino do próprio clube? Parece um cenário pouco plausível, mas o Grêmio já passou por algo muito parecido em 1978. O confuso regulamento do Campeonato Gaúcho daquele ano previa três turnos, cada um com grupos, semifinal e final, além de um hexagonal final, que ainda por cima foi decidido num jogo-desempate. Resumindo assim, nem parece tão complicado assim, mas, no decorrer deste texto, algumas situações soarão surreais.

Grêmio e Internacional não participaram do primeiro turno, por causa do Campeonato Brasileiro — encerrado apenas em agosto, já com o Estadual em andamento —, e as duas vagas daquela fase para o hexagonal final foram garantidas por Esportivo de Bento Gonçalves e Novo Hamburgo.

Já as vagas do segundo turno foram para Inter e Juventude, mas este só ficou com uma vaga no segundo pois o vice-campeão dessa fase foi o Esportivo, que já tinha garantido vaga no primeiro turno. (Nas semifinais do segundo turno, o Inter eliminou o Grêmio e o Esportivo eliminou o Juventude, mas não consegui descobrir por que o Juventude ficou à frente do Grêmio, se o clube da capital tinha feito melhor campanha ao longo da fase de grupos daquele turno.)

Assim, o Grêmio só disputaria o título se fosse um dos dois primeiros colocados no terceiro turno. Ou… se os times à sua frente ao fim dessa fase já estivessem classificados ao hexagonal final.

No terceiro turno, os vinte clubes foram divididos em dois grupos de dez, jogando dentro dos grupos em jogos de ida e volta, mas só contra alguns adversários. (Eu disse que iria dar trabalho explicar o regulamento em detalhes!) A tabela completa está no site da RSSSF Brasil. O Grêmio chegou à última rodada já classificado para a semifinal do terceiro turno, da mesma maneira que o Inter em seu respectivo grupo.

Pelo grupo II, junto com o Inter, entraria um clube ainda sem vaga no hexagonal final: Caxias ou Estrela. Como o campeão de cada turno ganhava um ponto extra no hexagonal final, o Inter escalou um recheado de juvenis contra o Caxias, na última rodada, possivelmente por considerá-lo um adversário mais fácil para o Grêmio na semifinal do terceiro turno do que o Estrela. (Aqui entra a questão de torcer contra o próprio clube só para prejudicar um rival.)

Enquanto isso, no grupo I, o maior candidato à outra vaga era o Juventude, que pegaria justamente o Grêmio na última rodada. Só que o Internacional de Santa Maria estava um ponto atrás e ficaria com a vaga caso vencesse o São Borja e o Juventude perdesse para o Grêmio. Mesmo um empate do Juventude poderia ser benéfico para o Inter-SM, desde que este vencesse o São Borja por pelo menos quatro gols de diferença, o que, coincidência ou não, ocorreu já no primeiro tempo, gerando suspeita.

Havia, entretanto, uma grande diferença entre Juventude e Inter-SM: o clube de Caxias do Sul já estava classificado para o hexagonal final. Um quadrangular do terceiro turno entre Grêmio, Inter, Juventude e Caxias classificaria o Grêmio (e o Caxias), independentemente do resultado. Por outro lado, se ele fosse entre Grêmio, Inter, Inter-SM e Caxias, o Grêmio correria o risco de ficar fora do hexagonal final. Bastaria perder para o Caxias na semifinal do terceiro turno, com o Inter-SM derrotando o Inter na outra chave.

O técnico gremista, Telê Santana, sabia da situação, mas evitou comentá-la na semana do jogo. No fim das contas, ele escalou reservas e juvenis para a partida. Dos titulares que encararam o Juventude, só Valderez enfrentaria o Inter na decisão do campeonato, dali a dois meses. Foi nesse cenário que os cerca de quatro mil torcedores que foram ao Olímpico naquela noite de 25 de outubro vaiavam os jogadores do Grêmio quando eles iam para o ataque e xingavam o árbitro Pedro Ivo Reis Plein quando ele marcava faltas contra o Juventude.

Um dos juvenis gremistas, Valdir Careca, abriu o placar, aos treze minutos. O empate veio num pênalti inexistente, porém dez minutos depois outro juvenil, Rubenval, desempatou para o Grêmio. O primeiro tempo terminou com novo empate, e no intervalo Telê trocou um dos juvenis, Baidek (que ainda teria uma longa carreira no Grêmio, mas estava fazendo sua estreia no profissional e só voltaria a jogar no time de cima novamente dali a quase três anos), pelo experiente Vicente, de 29 anos. Em campo, ele perdeu duas bolas na entrada da área e ainda se agachou em um cruzamento.

O gol da virada do Juventude veio em um gol irregular. Quando Flecha marcou o quarto gol do Juventude, um diretor do Grêmio gritou para o zagueiro Vílson: “Fica mal uma goleada. Vamos marcar o terceiro e amarrar o jogo.” Aos 43, Serginho fez o terceiro, gol comemorado pela torcida. O time saiu abraçado de campo, agradecendo à torcida.

Cacá, do Juventude, entretanto, só tinha críticas: “Tudo não passou de uma palhaçada. O jogador não pode ser desmoralizado, sendo levado a participar de um espetáculo desses.” O presidente do Grêmio, Hélio Dourado, não escondia a intenção, com uma crítica implícita ao regulamento do campeonato: “Foi uma rodada imoral, por isso assumi a derrota. Para que depois não fôssemos chamados de burros ou trouxas.”

Dourado chegou a telefonar para o presidente do Inter-SM, pedindo desculpas e até propondo que o hexagonal final virasse um octogonal, para dar uma vaga ao time de Santa Maria. Mas a resposta foi dura: “Não esperávamos que o Grêmio se rebaixasse tanto.” Os jornais gaúchos também não pouparam críticas, chamando o jogo de “Noite da Vergonha”.

O zagueiro gremista Cassiá definiu bem a situação: “Os clubes não são culpados. Tiveram de adaptar-se às regras de um ridículo campeonato. Espero que esta seja a última vez que isso acontece.”


A principal fonte para este texto foi a reportagem “Vergonha”, publicada no Jornal da Tarde de 27 de outubro de 1978. Mas utilizei também outras fontes, como a já citada tabela no site da RSSSF, uma reportagem da revista Placar número 1.154, de agosto de 1999, um texto do jornalista Paulo Vinícius Coelho, publicado no ano passado, e outro de Alexandre Perin, escrito em 2008. Além disso, a ficha técnica publicada na Grêmiopédia ajudou a conseguir as fichas dos jogadores gremistas envolvidos na partida.

Foto de abertura: Jogadores do Grêmio, abraçados, deixam o campo após a derrota para o Juventude. Crédito: Radiofoto CJCJ, via Jornal da Tarde.