Vi no Twitter algumas pessoas falando sobre os anos 1980 e decidi compartilhar também minhas memórias sobre a hiperinflação daquela época. Leve em consideração que entrei naquela década com quatro anos e saí dela com catorze e também não fiz nenhuma pesquisa mais detalhada, até porque não sou nenhum especialista no assunto.
A inflação ficou cada vez pior à medida que a década corria, com raros períodos de relativa calmaria por causa de planos econômicos, cujos efeitos duravam cada vez menos (Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor…). Já não era mais ditadura, mas eram efeitos dela.
Eu não pagava contas, claro. Tinha minha vidinha de criança e depois pré-adolescente de classe média-alta, vivendo em condomínio fechado e estudando em escola particular. Os efeitos que eu sentia eram na minha mesada. Nem era uma grande mesada. É difícil avaliar quanto seria hoje, por causa da inflação (que, se contada até hoje, deve estar no mínimo nos seis dígitos), mas era algo que me permitia comprar minhas revistas em quadrinhos.
Com a inflação galopante, minha mesada era, na verdade, uma “semanada”. Meu pai atualizava o valor de vez em quando, provavelmente não no mesmo ritmo dos gatilhos salariais e outros termos que eu ouvia na TV, sem saber o que eram. Aliás, o próprio termo “inflação”: aos dez anos, eu não sabia como ela era acelerada nem por que era tão difícil contê-la, mas já fazia uma boa ideia do que era. Meu filho mais velho hoje tem essa idade e não deve nem ter ideia do que é inflação. Mas eu sempre via na TV.
“Eu não tinha ideia de que você sequer se lembrava desses planos e das semanadas”, conta a minha mãe. “Fazíamos malabarismos para conviver com a inflação. A história do estoque de comida e demais ‘breguetes’ para a casa é verdadeira. A aplicação bancária também! Mas o que quase quebrou as pernas da gente foi o congelamento das contas bancárias e aplicações…”
Para comprar minhas HQs, eu desenvolvi uma “tática”: deixava para comprar mais para o fim do mês, quando elas estavam mais baratas. Quer dizer, o preço facial era o mesmo, mas a inflação já tinha comido o valor. O duro era esperar tanto tempo para comprar a revista da coleção. Os adultos tinham à disposição o Over, aplicações financeiras que atualizavam o valor depositado nas contas. Não faço ideia de como funcionava, mas obviamente eu não tinha nada similar à disposição.
As cédulas que o povo usava no dia a dia eram substituídas periodicamente, porque perdiam o valor. Eram substituídas por notas com personagens históricos cada vez mais obscuros para o grande público, porque já tinham usado antes os personagens mais conhecidos e não os repetiam.
No Plano Cruzado (1986), por exemplo, foram cortados três zeros da moeda anterior. Dez mil cruzeiros viraram dez cruzados. Cem cruzeiros viraram dez centavos. As notas de cruzeiro foram mantidas, mas iam, aos poucos, ganhando carimbos com o novo valor. Mais tarde, foram produzidas novas notas, iguaizinhas, mas com o novo valor já impresso. Foto: Associação Amigos do Museu de Valores do Banco Central.
A inflação galopante invadiu os anos 1990, que foi quando tivemos os mais altos valores faciais da história do Brasil, em meados de 1993, antes da adoção do cruzeiro real, mais um plano com corte de três zeros. Não por acaso, a edição de agosto daquele ano da revista Placar teve o maior valor facial de sua história: 290 mil cruzeiros.
Foi nesse ano que lançaram a cédula de quinhentos mil cruzeiros, o maior valor facial já utilizado. Estava programado para setembro o lançamento das notas de um milhão e cinco milhões de cruzeiros, porém, como o cruzeiro acabou substituído pelo cruzeiro real em agosto, as notas já foram lançadas como de mil e cinco mil cruzeiros reais. A edição de setembro de Placar já veio com o preço de 490 cruzeiros reais.
Uma reportagem do Estadão, em 30 de junho, falou sobre o lançamento das notas de um milhão e cinco milhões, já considerando que elas poderiam ter seus valores alterados caso houvesse mudança monetária. Mas a principal informação da notícia é outra, com mais um efeito colateral da hiperinflação: “O Banco Central deverá gastar neste ano 86 milhões de dólares com a impressão e distribuição de cédulas. Se as novas notas não fossem aprovadas, esse custo aumentaria em catorze milhões de dólares, por causa da necessidade de uma quantidade maior de notas menores.”
Foi por volta dessa época que a Editora Abril decidiu enfrentar a inflação de uma maneira diferente: os preços das revistas em quadrinhos deixaram de ser impressos nas capas. Em vez deles, elas continham um código (tipo “B5”), seguido da informação “ver tabela”. O jornaleiro tinha uma tabela, que era atualizada com alguma frequência (semanalmente? diariamente?) e trazia os valores atualizados a ser cobrados por cada revista.
Quando o Plano Real já estava em curso, mas a nova moeda ainda não tinha sido implantada, muitos passaram a usar a URV (Unidade Real de Valor). A Abril fez isso em junho de 1994. O Guia Placar da Copa do Mundo, por exemplo, custou 3,50 URVs.
Voltando aos anos 1980, lembro da esperança de que o Plano Cruzado fosse melhorar as coisas. Minha esperança, claro, era influenciada pelo noticiário, em geral positivo no início do plano. Cito como exemplo uma matéria, falando de uma rua sem nome, que ganhou o nome Rua 28 de Fevereiro, em homenagem à data em que o Plano Cruzado foi lançado. Isso foi logo depois do lançamento. Não faço ideia se a rua ficou com o nome. Não lembro nem em que cidade ela ficava.
Em algum momento, meu pai comprou ações de uma metalúrgica para mim. Não me lembro nem de qual era. Ele explicou por alto o que eram ações, e já fiquei imaginando que teria à minha disposição quantas chapas e aço quisesse para construir esconderijos. Subterrâneos, ainda por cima. Afinal, eu era “um dos donos” daquela metalúrgica. Provavelmente o valor das minhas ações era simbólico. Nem sei o que foi feito delas.
Outra coisa que tive, mas antes disso, foi uma conta poupança, daquelas com caderneta que era atualizada à mão, sempre que meu pai passava no banco. Isso deve ter sido antes do Plano Cruzado. Depois, meu pai tirou o dinheiro que havia nela e me deu. Não faço ideia do que comprei com esse dinheiro, mas não era nenhuma fortuna. Não duvido que eu tenha usado em algum sebo que vendia revistas em quadrinhos antigas.
Em 1990, veio o Plano Collor, logo após ele assumir a presidência. De novo, eu não fui diretamente afetado pelo confisco, porque não tinha conta em banco e já não tinha minha supracitada poupança. Lembro que minha tia tinha dito que iria me dar duzentos cruzados novos (acho que era isso), mas estava pensando que agora seria difícil ela poder me dar. Então liguei para ela, porque eu “precisava” ter uma ideia se eu iria ganhar aquele dinheiro ou não. Só que, falando com ela sobre o confisco, eu tive uma pequena ideia do impacto disso para os adultos, por isso falei para ela que ela não precisava mais me dar aquele dinheiro.
Se há uma coisa que eu não faço ideia, é como as pessoas conseguiram manter vidas razoavelmente normais naquele período, especialmente os empresários. Meus pais, por exemplo, conseguiram fazer a nossa vida seguir de uma forma que eu não tive ideia do impacto.
